1.10.08

Nomes aos bois


Eu tenho uma amiga que dá nomes e apelidos de gente às coisas. O laptop chama-se Borges, o Ford Ka é o "O Gordo" e a televisão tem um nome que eu agora esqueci. Um dia ela me ligou pedindo ajuda, dizendo que o "Borges estava bravo" e não queria mais escrever. Fui lá e conversei com o Borges, que me contou transtornado que ela havia apagado arquivos essenciais para o bom funcionamento dele. Claro, você entende aí que o computador não me disse nada, que na verdade eu cheguei lá e verifiquei que ela (ou alguém, não sei) resolveu apagar arquivos sem saber o que eram ou para que serviam, o que fez com que o sistema não conseguisse fazer a associação dos atalhos na área de trabalho com os programas e arquivos relacionados a alguns deles. Um dia eu encontrei com ela, cara de cansada, suada. "O gordo me deixou na mão, acreditas?" E eu perguntei quando tinha sido a última vez que ela tinha levado o gordo no médico pra fazer um check up e assim continuamos na brincadeira. Porque é realmente divertido brincar de humanizar as coisas. O que não me parece funcionar muito bem é quando fazemos um coisa quase inevitável: dar nome de gente a sentimentos. 

"Morro de saudades do Pedro. Nunca esqueci o Pedro. Sempre que eu me sinto só, eu penso no Pedro". Vamos traduzir, o Pedro é o nome do ex-namorado, o último (ou pelo menos o mais marcante) que fez o cidadão ou a cidadã em questão feliz, em casa, contente. Aí, sempre que a casa ameaça ruir, a criatura pensa que é o Pedro que está fazendo falta. Ela pensa que ninguém é igual ao Pedro, que nobody does it better, que o Pedro é que é o cara. Esquece que se terminou, algo havia de errado. Que o Pedro, a pessoa, não era bem o parceiro dos sonhos. Mas que o Pedro, o sentimento, ah este é imbatível, representa a última vez que você se sentiu protegido, querido, desejado, maior do que o mundo, do que as coisas fúteis e os dias longos e as noites frias. 

Então chega um momento em que você já não sabe mais fazer a distinção entre Pedro, a pessoa e o sentimento. E quando você sente aquele abandono brutal no domingo à tarde, acha que está morrendo de saudade do Pedro, mas na verdade queria mesmo era repetir a sensação que tinha quando vocês se abraçavam e era como se um anjo safado abrisse suas asas para te acolher do mundo que não consegue te entender e do qual você já desistiu. E você uma vez, pelo menos, fez sentindo do encontro com alguém, achou que valia a pena, que existe isso que alardeiam nos filmes, livros e canções, que felicidade não é uma palavra proibida no seu dicionário.

Só que este sentir-se maior e mais possível não precisa atender pelo nome de alguém específico. É injusto até com o pobre do Pedro, que já nem lembra mais que você existe e está tentando, do jeito dele, ser feliz e namorar e tocar a vida da forma que consegue. É mais injusto ainda com você que perpetua essa equação em que felicidade = o outro. E passa anos infeliz, sem saber que a felicidade muda de nome conforme você a experimenta, e se ontem foi Pedro ou Luíza, hoje pode ser Ana ou Roberto e amanhã pode ser Fernando ou Maria. E nenhuma dessas pessoas terá a chance de te conhecer e, de repente, te fazer feliz se você não se der conta de que está buscando reviver um momento que não mais existe. A Ana, o Roberto, o Fernando e a Maria agradecem. E o Pedro também. 

*A foto que ilustra o post é do filme A Janela da Frente (La Finestra di Fronte, 2003), do diretor turco Ferzan Ozpetek, o mesmo de Um Amor Quase Perfeito (Le Fate Ignoranti, 2001). Altamente recomendável para quem está pensando em amar de novo.

31 comentários:

  1. Oh, querido... tema de tantas das nossas conversas, né? E tu descreveste magistralmente. Amei.

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  2. anderson1:11 PM

    ótimo texto. nem sempre é facil, mas eventualmente precisamos desopilar o coração...

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  3. Simone Teixeira1:55 PM

    Oi! Frequentemente venho aqui ler seu blog, mas nunca comentei. Hoje achei que precisava ser diferente... Suas palavras traduziram exatamente o que eu descobri há pouquíssimo tempo (ainda bem!). Agora só falta meu coração entender e aceitar. Obrigada! Sinto-me presenteada com esse texto, mesmo ele não tendo sido escrito pra mim...

    Se quiser conhecer meu blog:
    simoneteixeira.wordpress.com
    Vou adorar te receber!

    um beijo,
    Simone

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  4. Anônimo2:59 PM

    Noooossssa, foi meu anjo da guarda que me fez abrir Mme Mean hoje e ela me mandar para vc. Muito obrigada. Beijos, Mariana Borges.

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  5. flordelis3:02 PM

    Oi, tudo bem? Vim pelo link da Ticcia e preciso comentar, porque, meu Deus, é isso, a ficha caiu, obrigada. Agora vou ter que ler todos os seus outros posts. Pensei que era só a Ticcia que entrava na cabeça da gente pra escrever. :-)

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  6. "se terminou, havia algo de errado" é tão difícil lembrar desse pequeno detalhe. Maravilhoso o teu texto, Alex. Vou imprimir, pra lembrar sempre de separar os Pedros e colocá-los em seus devidos lugares.

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  7. André Gonçalves4:44 PM

    Olá.
    Bom reencontrar seu blog.
    Grande abraço.

    André

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  8. André Gonçalves4:44 PM

    Olá.
    Bom reencontrar seu blog.
    Grande abraço.

    André

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  9. Cris Sampieri5:37 PM

    PERFEITO!
    É isso... simplesmente, "perfecto"!!!
    bjos

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  10. Muito bom mesmo, na mosca. Não é sempre que a gente consegue dizer o que precisa com essa clareza e precisão.
    um abraço,
    clara lopez

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  11. Muito bom mesmo, na mosca. Não é sempre que a gente consegue dizer o que precisa com essa clareza e precisão.
    um abraço,
    clara lopez

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  12. Valéria8:23 PM

    Simplesmente perfeito.

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  13. Eu estou tentando matar o Pedro "a porradas" já há algum tempo. Embora seja extremamente racional e tenha já racionalizado tim tim por tim tim essa coisa toda que você escreveu, Pedro parece ser como um joão teimoso.
    Um passo já dei, já me convenci que o que me faz falta é o sentimento e não o Pedro. O buzilis agora é dissociar os dois.
    Um dia talvez, eu consiga afogar o Pedro.

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  14. Oh, pessoal... obrigado pela visita e que bom que gostaram do texto. É importante a gente saber dessas coisas racionalmente, mas entendam que isso tudo só vai fazer sentido quando a gente conseguir sentir que é assim, que é isso mesmo, que foi engano, linha cruzada, número errado.

    Mas é errando que se acerta. O importante é continuar tentando.

    ;-)

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  15. Anônimo11:28 AM

    Legal! Precisei de três anos pra entender as coisas assim. Três. Afe. Lindo texto.

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  16. poliana12:24 PM

    Simplesmente a tradução do que eu estou passando agora, achei que fosse só eu.... nesse mundo ....
    Poliana

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  17. poliana12:24 PM

    Simplesmente a tradução do que eu estou passando agora, achei que fosse só eu.... nesse mundo ....
    Poliana

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  18. Anônimo4:23 PM

    Ah coisa mais linda de se ler. Eu tenho nostalgia da sensação de acreditar que só o primeiro namorado me trouxe; mas não é dele, sabe? É de acreditar mesmo.

    Bezzos, querido. Belo texto! Parabéns!

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  19. Quando alguém descobrir como divorciar o Pedro do sentimento me avisa?! Agradecida!! hehehe PS: Parabéns, adorei seu texto!

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  20. Andréia8:16 PM

    Que coisa mais linda. ADOREI. Como vc escreve bem. Vou voltar.
    Bj

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  21. Descobri seu blog ontem e não parei de ler...
    Já tentei fazer outros posts e não consegui. Vamos ver se este vai.
    Li vááários posts do fricção. Tive que sair pra tomar um café e fumar um cigarro. Só tem um detalhe: eu não fumo!!
    Assumi o meu absurdo de hoje.

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  22. Voce tem toda razão. Vou tentar ver os filmes...um abraço.

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  23. Anônimo4:38 PM

    Muito lindo e limpido este escrever que é tao arquitetura quanto literatura. Um abraço, aliki

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  24. Lindo o texto! "Roubei" lá para o meu blog (com os devidos créditos, é claro!)

    Um beijo,
    Maritza

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  25. Eu sinto falta do "Pedro" sim, e bem nos domeingos a tarde, na maioria das vezes... aiaiai. O chapelão serviu.
    Me interessei pelos filmes, espero que sejam fáceis de achar...
    Amei o texto, e a galera também, haja visto o número de coments. Parabéns
    Beijos

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  26. Sergipano6:03 AM

    Texto belo.

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  27. Muito bom seu texto.

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  28. alba de barcellos9:20 AM

    que texto é esse???? agora me peguei pensando em dar um nome para "texto" ... pq de repente fica tão distante falar: q texto lindo! mas, "texto" seria homem ou mulher? pq se eu fosse batizar meus textos eu os chamaria de "carolina" ... olha bem oq vc fez com a minha cabeça.... de qualquer forma...que "carolina " linda !!! bom domingo. ;)

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  29. admiro sua capacidade de escrita e a coesão com escreve...parabéns.

    abraço

    rafael

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  30. Oh, querido, te amo ontem, hoje e amanhã. Vou ler os posts todas as vezes que pensar no Pedro com saudade, aquele safado!

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  31. Fiquei emocionada. Parabéns pelo texto!

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