16.11.08

Apagando o fogo com gasolina

Em 1982 Giorgio Moroder, o mago dos primórdios da música eletrônica - que havia, na década anterior, criado o que hoje chamamos de techno quando produziu I Feel Love de Donna Summer - foi recrutado para fazer a trilha sonora do filme A Marca da Pantera (Cat People). Para os vocais da canção homônima, sugeriu o vozeirão elegante de David Bowie e povoou o arranjo com batidas e guitarras góticas, muito bem aproveitadas anos depois por bandas como Depeche Mode, The Cult e Sisters of Mercy. Bowie fez muito mais do que cantar, ele compôs a letra que contém uma das frases mais marcantes da música pop: Putting out the fire with gasoline.

Eis que apagar o fogo com gasolina, apesar de a expressão parecer inventiva, não é algo novo e tampouco deixou de ser usual. Ora, quem deseja extinguir algum mal não deve fornecer a ele justamente mais daquilo que o alimenta, certo? Perdoem, mas a Martha Medeiros em mim não resiste em perguntar: não estaríamos nós todos em algum momento apagando fogo com gasolina e saíndo fatalmente queimados destes incêndios tão freqüentes que nós mesmos agravamos?

Quando alguém diz eu não suporto mais este emprego e pede demissão, sem perspectiva de algum outro trabalho ou proposta, está aparentemente apagando um fogo: o descontentamento de trabalhar em determinada empresa. Resolveu se rebelar contra o destino que lhe punha amarras nos pulsos e calcanhares e se libertar. Voar, voar; subir, subir. Mas para onde mesmo? Um vôo kamikaze. Esta dita liberdade nada mais é do que uma outra prisão, sem barras nem algemas, mas é dela que você vira prisioneiro. Apagando o fogo com gasolina.

É como aquele cara que tem um profundo descontentamento consigo mesmo e pensa que só com o carro perfeito, a mulher perfeita ou o corpo perfeito poderá ser validado como gente de primeira categoria. Ele compra o carro, a dolorosas prestações. Se sujeita a estar com a mais gostosa - sim, parece um contra-senso "sujeitar-se" e "a mais gostosa" na mesma frase, mas às vezes não é - mesmo que isso custe um pouco de paz e muito dinheiro. Malha, malha, levanta peso, corre, toma bomba, shakes, proteína, albumina e termogênicos. Tudo isso pra dizer que é saudável e cuida do corpo - mesmo que isso vá custar a sua saúde e um rim ou fígado daqui a alguns anos. Vira uma vítima de um ciclo destrutivo e cinco, dez, quinze anos depois percebe que a estima de si está mais baixa e dependente da validação dos outros do que lá no início. Apagando o fogo com gasolina.

E a mulher que serve de saco de pancadas ao marido, a que se deixa abusar moralmente. A que está sempre errada no final das contas. Que mesmo exímia malabares, trazendo e levando filhos pro colégio, fazendo o que pode com o que tem, ou às vezes fazendo muito do muito pouco, mesmo assim, ainda que tire água de pedra, o cara insiste em colocá-la no lugar da inutilidade, da gente que não presta, como se ela só servisse pra burro de carga e, a seu lado, valesse menos do que a sua sombra. Ela, esta infeliz que não soube escolher o parceiro porque nunca aprendeu o que é respeito, quer acima de todas as coisas "salvar seu casamento". Acha que deve ter calma para fazer tudo certo e conseguirá recobrar a paz no lar. Um dia os filhos já não lhe ocupam mais tanto tempo e ela consegue se dar conta que poderia ter sido tão feliz - ou ao menos tentado. Se não tivesse perdido seu tempo apagando o fogo com gasolina.

É pela falta de respeito próprio? É por não saber fazer diferente? Ou porque seria mais fácil violentar a si próprio do que respeitar-se e fazer aquele esforço extraordinário de galgar as dificuldades e conquistar o melhor para si? E quem faz isso consegue enxergar o que faz?

Acho que, quando escreveu aquela letra, David Bowie queria mesmo era falar da forma contraditória como se mostra a atração sexual, como se manifesta o desejo. Eu é que fiz a bobagem de achar que poderia ser outra coisa.

De qualquer forma, quem quiser ver Tina Turner interpretanto Cat People, num registro raríssimo e delicioso, clique aqui.

8 comentários:

  1. Texto perfeito, Grande A.!

    Parte de um comentário (aparentemente inocente) sobre a música-tema de Cat People (aliás um filme que eu adorei no passado, preciso rever), pra uma digressão e reflexão sobre o jeito como nós nos tratamos. E você o faz de uma maneira elegante, muito bacana. Mais para o fim, abandona a visão geral e volta para si mesmo, e para como cada um lida com o próprio desejo.

    Pra não falar da capacidade de nos trazer de volta para a música, no final (e justamente com Tina Turner, uma metáfora do que foi descrito). Taí, foi o fecho perfeito.

    É isso aí, a gente vive apagando o fogo com gasolina. E o que é pior, varrendo as fagulhas (às vezes, labaredas) pra baixo do tapete.

    Abração, do Alvaro

    P.S. - E como não lembrar do Molina, nO Beijo da Mulher Aranha, contando para seu companheiro de cela trechos do Cat People original? Saudades de Irena, a mulher-pantera...

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  2. poxaaaaaaa eu adro essa musica
    ei a vida tem disso
    nos prendemos a situacoes que nao podem ser tao saudaveis em busca de objetivos nem tao nobres...

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  3. Ou quando a gente acha que correndo no sentido contrário vai esquecer... está mesmo é apagando o fogo com gasolina.

    Coisa boa te ler, meu lindo.

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  4. Camile3:49 PM

    Oi, tudo bem?
    Você é de porto alegre?

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  5. Muito bom o teu blog! Talvez Bowie de fato não estivesse tão filosófico quanto você ao compor. Mas de qualquer modo seu texto mostra o poder da arte! Abraços!

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  6. Texto muito bom! Esse assunto é quase psicanalítico. Quem são os "outros" que nos impedem?

    Sobre o comentário do Álvaro: Nossa o beijo da mulher aranha! Que bom que você me lembrou disso, vou rever.

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  7. Claudia Acourt11:27 AM

    Càspita, isto aqui melhora cada dia mais!

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