26.11.08

Barcelona chata



Woody Allen já tem uma carreira sedimentada como diretor e esteta que ultrapassa qualquer julgamento que se possa fazer a respeito de suas obras atuais. O outro lado da moeda de se estar no patamar daqueles profissionais que criaram estilos e definiram o rumo de gêneros do cinema é que sempre se espera que eles consigam superar a genialidade do passado e entreguem uma obra definitiva a cada novo trabalho. O que, infelizmente, ainda não aconteceu com Vicky Cristina Barcelona, seu novo lançamento com Scarlett Joahansson, Javier Barden, Penelope Cruz e Rebecca Hall.

Desde quando seus filmes se passavam em Nova York, Woody Allen já utilizava filtros nas lentes das câmeras para melhor controlar a luminosidade, o que propiciava sempre uma atmosfera enfumaçada, intimista e sedutora. Só que Barcelona não tem a imponente sombra dos arranha-céus de Manhattan, nem o nevoeiro melancólico da ponte do Brooklin ao entardecer. Abafar a luminosidade da paradisíaca cidade espanhola é destituí-la de um dos seus bens mais preciosos, a luz do sol. No filme, tudo ficou opaco e todos vestem tons pastéis enfadonhos.

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas americanas que vão passar as férias de verão em Barcelona na casa da tia de uma delas (a veterana Patricia Clarkson, aqui desperdiçada) e acabam se envolvendo com Juan Antonio (Javier Barden), um atormentado artista plástico, que, por sua vez, tem uma ex-esposa colérica e perturbada, Maria Elena (Penélope Cruz). Vicky é toda certinha e está de casamento marcado com um rapaz igualmente certinho, porém completamente desprovido de personalidade. Já Cristina, que em alguns momentos funciona como um alter ego feminino do Woody Allen dos anos 80, é mais libertária e infantilóide.

Numa trama que vai do nada a lugar algum em 90 minutos, Allen construiu seu filme mais enfadonho dos últimos tempos, caminhando lado a lado com Match Point e Scoop, sendo que este último tinha bem mais humor, e o primeiro, mas densidade - esqueçamos o péssimo O Sonho de Cassandra, é melhor não falar dele. Vicky Cristina é contemplativo e sexy, seu maior mérito, graças à dupla de atores espanhóis, que fogem do estereótipo elitista do rico neurótico, marca registrada do diretor - além, é claro, da trilha sonora impecável.

Da recente safra do diretor, os últimos traços de inventividade ficaram em Melinda/Melinda (2004) e Igual a Tudo na Vida (2003). Este ano, Allen voltou à sua amada Nova York para filmar Whatever Works, com Evan Rachel Wood no elenco, além Larry David, um dos idealizadores da série Seinfeld e protagonista de Curb Your Enthusiasm. Quem sabe voltando para casa, depois destas idílicas e longas férias filmando na Europa, ele volte a acertar.

5 comentários:

  1. Prensada2:07 PM

    Melinda é um saco, talvez o mais fraco de todos.
    Adorei Vicky Cristina e Barcelona...rs*
    Achei que ele levantou uma questão muito importante na vida de qualquer criaturinha:
    amor ou paixão louca ?
    Levanta a pergunta e sai correndo !

    ResponderExcluir
  2. Nossa, Alex, quanto rigor! Eu gostei tanto da luz quanto das roupas dos personagens, que não achei pastéis, mas quentes. Achei que o filme ficou com uma luz em tom queimado bem agradável. Gostei do dilema da Vicky e achei Christina bem boba. Penélope Cruz sempre impactante e Javier Bardem uma coisa de louco. O roteiro é agradável e o filme divertido. Não sei se Woody Allen precisa se superar sempre, basta fazer um bom filme e Vicky Christina... cumpre esse papel.

    ResponderExcluir
  3. Ah!! Eu gosteeeeiii... Vou te falar uma coisa: mesmo discordando, eu gosto do que você escreve. Impressionante! :D

    ResponderExcluir
  4. Poxa Alex...adorei o filme linear, linear e uma falta de atmosfera latina na Espanha, a cereja do bolo.

    Talvez este seja um dos filmes mais simples do WA...mas o que mais impressionou, para mi, foi a total falta de talento da Scarlett Joahansson...Nossa, a Penélope Cruz aparece e a outra some...

    ResponderExcluir
  5. com luz ou sem luz, a atmosfera de barcelona...o ar talvez nao tinha luminosidade desejada por nosso alex, mas fiquei totalmente seduzido durante o filme...com intesidade da paixao tomados por todos...

    segundo a pergunta deixada por "Prensada"acima, acho que tudo é uma louca paixão, sendo que cada personagem apresenta a sua intesidade, a sua permissão de senti-la, de vivencia-la.

    ResponderExcluir