3.11.08

O dia da marmota


Em Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993), o repórter Bill Murray vai ao interior da Pensilvânia, escalado para fazer uma matéria chata sobre um evento aparentemente desinteressante: o dia da marmota, um mito local que anuncia a proximidade do final do inverno. O problema é que o personagem de Murray se vê preso no tempo e acorda sempre no mesmo dia, presenciando e participando dos mesmos eventos. Esta previsibilidade lhe permite, depois do choque inicial, manipular os resultados. Ele diz a Andie MacDowell o que ela deseja ouvir para conquistá-la e posa de herói com os moradores locais, pois ele vive aquele 2 de fevereiro todos os dias.

É bem curioso como o personagem reformula a realidade conforme vai aprendendo com ela - a seu favor, é claro. Ele constrói uma série de mentiras que seguramente agradarão ao outro, até chegar num ponto em que fica difícil saber o que ele realmente quer para si.

A mentira e a realidade têm, cada qual com suas idiossincrasias, mais em comum do que se pode imaginar. Não nos damos conta dessa semelhança assustadora porque estamos ocupados, na maior parte do tempo, em viver o que chamamos de realidade. O que é real? Acordar de manhã (ou ao meio-dia ou de madrugada), trabalhar, estudar, almoçar, conviver com colegas, familiares e amantes, cumprir com obrigações, sair à noite, beber e dormir novamente.

É possível que esta tão real e palpável rotina seja, para nosso espanto e horror, uma mentira - ou quem sabe uma seqüência delas? Sim. Eu posso mentir que amo, eu posso mentir que meu trabalho me dá prazer, que meu casamento está na mais intocada paz, que minha existência me traz felicidade depois da soma e subtração do bem e do mal. Minto minhas ambições, minha tolerância, meu afeto, minhas intenções; minto que mudei, que me gosto, que faço por mim o melhor, que escolho a mais pensada tranqüilidade perante as opções oferecidas no descarte do destino.

Minto desenfreada e perigosamente para mim mesmo e nem me dou a chance de perceber que sim, estou mentindo a mentira mais deslavada do mundo. Chamo de acreditar que vai dar certo a uma coisa que eu sei que não existe. Prometo um bocado de mim ao outro que não me pertence. Acredito piamente porque este acreditar completa e valida a minha mentira. E depois compreendo porque não durmo tranqüilo, porque eu preciso que a ficção me diga quem eu sou através das mais belas e inusitadas metáforas visuais ou verbais, seja através da obviedade do folhetim diário e do livro de auto-ajuda ou pela mais complexa e desordenada trama de um cultuado filme.

O que ela faz afinal de contas? Aí está a ironia. A ficção - o sonhar acordado, a fantasia bem contada - nos representa e explica repetidamente que estamos mentindo. Estamos deixando de viver o que há de mais verdadeiro em nós, abafamos nosso real desejo, deixamos de obedecer nossa vontade primordial. Eu termino de ler aquele livro e digo "daqui para frente tudo vai ser tão diferente". Por alguns momentos eu acordo, mas péra aí, cadê a vida que eu deixei aqui? Sumiu. Mas em dez minutos eu preciso estar no trabalho, cumprir meu prazo, fazer o que eu venho prometendo aos outros a vida inteira - e que nunca tive para dar. E volto a acreditar na mentira.

12 comentários:

  1. Um tapa na cara, meu amigo. Que a gente precisa ter coragem de se dar de vez em quando para acordar e olhar em volta. Ótimo texto.

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  2. Si = )1:56 PM

    Maravilhoso insight.

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  3. Rolden Caulfield2:44 PM

    É isso que chamo de "reality check". Você está certo. I do lie.
    É deveras mais fácil criar um script em torno da vida, ser mais um sonâmbulo, porque aí a responsabilidade que permeia os atos de verdade caem por terra. Fica incrivelmente mais fácil.
    Mas é difícil mentir para si mesmo, por muito tempo.
    Obrigado.

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  4. Eu posso mentir que todo dia não entro aqui à procura de um texto! Posso mentir que leio e releio e, cada vez, é um pedacinho diferente que me pega.

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  5. Ótimo texto, insight perfeito. Mas há alguma possibilidade de viver sem pequenas mentiras que permitem o convívio entre os tão diferentes - projetos, desejos, existências de cada um de nós? Não sei, nem se será possível não mentir para si mesmo quando se precisa de uma relativa 'elasticidade' para conviver.
    um abraço,
    clara lopez

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  6. Tô embasbascada. Na 6a.feira passada, me referi a este filme para uma amiga, entretanto num contexto diferente. Eu me sentia presa num pensamento vários dias seguidos, como se acordasse todo dia no mesmo dia. Amei o post. Mas devo concordar com a Clara: as mentiras são necessárias. O ponto é: até onde elas devem ir? Quando é a hora de parar?

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  7. Carlos ( Monsier Pai)9:21 PM

    No meio do texto das mentiras, você conseguiu falar sobre a verdade verdadeira. Um grande abraço meu amigo.

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  8. Anônimo8:00 AM

    Oi, comentei sobre vc no meu blog. Por favor me avise se gostaria que eu retirasse.

    http://shgis.blogspot.com/2008/11/sobre-este-link.html

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  9. Odeio essas mentiras e não participo delas e pago um preço altissimo porisso!!! Sou anti social por não compactuar com essa sórdida rotina mortal!!!! Com essas mentiras que corroem a alma...Perfeito!!!

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  10. Texto muito profundo, Grande A.!
    Li, reli, digeri, comentei... Realmente, fez pensar.
    Abração, do
    Alvaro

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  11. Muito profundo, o seu texto, Grande A.!
    Li, reli, ponderei, discuti... Gostei de verdade.
    Abração, do
    Alvaro

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  12. Anônimo4:48 PM

    A primeira fez que vi este filme...fiquei impressionada....pois quem não gostaria de ter mais uma chance na vida!! mas como disse sabiamente Chico Xavier. "Ninguem pode voltar atras e fazer um novo começo...mas qualquer pode começar agora e fazer um novo fim"...tento me lembrar disto pois tem dias que o bicho pega...bjs....A.

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