A tarde de sábado em Porto Alegre teve o clima típico dos outonos gaúchos: frio moderado e muita, muita chuva - o que transforma o frio moderado em algo bastante insuportável. Mas aqui estava eu, firme e forte, trabalhando numa tradução que faz a Bíblia Sagrada parecer um pocket book. Um litro de café bem forte, minha caneca do Teatro San Martín de Buenos Aires (o meu "eu deslumbrado" acredita piamente que beber da caneca do Teatro San Martín faz tudo mais inspirador) e a recém-adquirida tela de 19 polegadas widescreen acompanhada do teclado Stanley Kubrick que só falta falar.
Até que toca o telefone. "Já mandei comprarem ingressos para vermos Sex And The City as 21h hoje". Mas já? Eram 4 da tarde. Segundo ela, aquela seria a sessão mais concorrida do final de semana e, sim, era necessário antecedência na compra dos ingressos. Que cidade é esta? Basta chover para que a ida ao cinema seja uma aventura que está mais para Indiana Jones do que propriamente Sex And The City. "Ok, vamos. Mas agora eu preciso trabalhar."
Até que novamente, segundos depois, liga a outra amiga, esta menos surtada, só chateadinha com uma rusga amorosa. Não sei se fiz certo, levando em conta a situação e o filme, mas convidei-a também; afinal de contas, não importa o filme quando a gente precisa um pouco de carinho e atenção dos amigos. Ela não é fã da série, mas mesmo assim, topou. Estabeleceu-se então o dilema do ingresso extra. "Tem como comprar mais um?" A esta altura eu já estava usando o viva-voz. "Vou tentar, já te ligo". Não dava mais. Mas pela internet dá, no site
www.ingresso.com.br. Entro, faço cadastro, escolho sala e horário e, em menos de 10 minutos, estava com o ingresso na mão. Sai quase dois reais mais caro, mas acredite quando eu digo que num dia daqueles é até barato.
Oito horas da noite, o Cinemark aparentemente tranquilo, até que a voz ao microfone anuncia "a fila para o filme
séquis ândi citchi já está sendo formada à direita da entrada das salas." Uma contida comoção de mulheres de mais de 30 arrastando os companheiros pelos cabelos se estabelece e em menos de 10 segundos a fila já era maior do que a procissão de Nossa Senhora Aparecida. Carrie Bradshaw, Nossa Senhora do Salto Alto, faria sua aparição em 10 minutos. Ou assim pensávamos. O Cinemark é conhecido pelo abuso de comerciais antes das sessões. Quase meia hora depois, começam os créditos.
A protagonista está mais para Nossa Senhora das Escolhas Erradas. Do figurino ao objeto amoroso. Ao contrário do que prega todo o conceito da série, nunca fala da sua vida sexual. É a mais vazia de todas. Não é de se espantar que desabe desastrosamente frente a qualquer problema de ordem prática.
E a piada mais sofisticada do filme perdeu-se na tradução. Quando a editora da Vogue (Candice Bergen) convida Carrie a participar da edição especial da revista sobre noivas de 40 anos. "Você é a última mulher solteira, Carrie". "Bem, não sou a última". "Bem, não, mas 40 é a última idade em que uma mulher solteira pode posar para um editorial de noivas sem parecer uma referência acidental a Diane Arbus". Uma alusão à fotógrafa novaiorquina que retratava apenas freaks (e que foi tema do filme
A Pele). O tradutor em mim lamentou a perda da piada, mas também imaginou como seria traduzí-la sem a possibilidade de uma nota de rodapé.
Ainda chovia perto da meia-noite quando terminou a sessão. E quando saíamos do cinema eu observava temeroso aquela horda de mulheres com cara de quem presenciou um milagre. Me veio à cabeça uma frase do filme, na cena em que Carrie termina de ler Cinderella para a filha de Charlotte. Ela arremata a fatídica frase "
... e eles viveram felizes para sempre" com "Você sabe que nem sempre na vida nós temos um final feliz, não é? É importante você saber disto agora".