
Eu tenho uma amiga que dá nomes e apelidos de gente às coisas. O laptop chama-se Borges, o Ford Ka é o "O Gordo" e a televisão tem um nome que eu agora esqueci. Um dia ela me ligou pedindo ajuda, dizendo que o "Borges estava bravo" e não queria mais escrever. Fui lá e conversei com o Borges, que me contou transtornado que ela havia apagado arquivos essenciais para o bom funcionamento dele. Claro, você entende aí que o computador não me disse nada, que na verdade eu cheguei lá e verifiquei que ela (ou alguém, não sei) resolveu apagar arquivos sem saber o que eram ou para que serviam, o que fez com que o sistema não conseguisse fazer a associação dos atalhos na área de trabalho com os programas e arquivos relacionados a alguns deles. Um dia eu encontrei com ela, cara de cansada, suada. "O gordo me deixou na mão, acreditas?" E eu perguntei quando tinha sido a última vez que ela tinha levado o gordo no médico pra fazer um check up e assim continuamos na brincadeira. Porque é realmente divertido brincar de humanizar as coisas. O que não me parece funcionar muito bem é quando fazemos um coisa quase inevitável: dar nome de gente a sentimentos.
"Morro de saudades do Pedro. Nunca esqueci o Pedro. Sempre que eu me sinto só, eu penso no Pedro". Vamos traduzir, o Pedro é o nome do ex-namorado, o último (ou pelo menos o mais marcante) que fez o cidadão ou a cidadã em questão feliz, em casa, contente. Aí, sempre que a casa ameaça ruir, a criatura pensa que é o Pedro que está fazendo falta. Ela pensa que ninguém é igual ao Pedro, que nobody does it better, que o Pedro é que é o cara. Esquece que se terminou, algo havia de errado. Que o Pedro, a pessoa, não era bem o parceiro dos sonhos. Mas que o Pedro, o sentimento, ah este é imbatível, representa a última vez que você se sentiu protegido, querido, desejado, maior do que o mundo, do que as coisas fúteis e os dias longos e as noites frias.
Então chega um momento em que você já não sabe mais fazer a distinção entre Pedro, a pessoa e o sentimento. E quando você sente aquele abandono brutal no domingo à tarde, acha que está morrendo de saudade do Pedro, mas na verdade queria mesmo era repetir a sensação que tinha quando vocês se abraçavam e era como se um anjo safado abrisse suas asas para te acolher do mundo que não consegue te entender e do qual você já desistiu. E você uma vez, pelo menos, fez sentindo do encontro com alguém, achou que valia a pena, que existe isso que alardeiam nos filmes, livros e canções, que felicidade não é uma palavra proibida no seu dicionário.
Só que este sentir-se maior e mais possível não precisa atender pelo nome de alguém específico. É injusto até com o pobre do Pedro, que já nem lembra mais que você existe e está tentando, do jeito dele, ser feliz e namorar e tocar a vida da forma que consegue. É mais injusto ainda com você que perpetua essa equação em que felicidade = o outro. E passa anos infeliz, sem saber que a felicidade muda de nome conforme você a experimenta, e se ontem foi Pedro ou Luíza, hoje pode ser Ana ou Roberto e amanhã pode ser Fernando ou Maria. E nenhuma dessas pessoas terá a chance de te conhecer e, de repente, te fazer feliz se você não se der conta de que está buscando reviver um momento que não mais existe. A Ana, o Roberto, o Fernando e a Maria agradecem. E o Pedro também.
*A foto que ilustra o post é do filme A Janela da Frente (La Finestra di Fronte, 2003), do diretor turco Ferzan Ozpetek, o mesmo de Um Amor Quase Perfeito (Le Fate Ignoranti, 2001). Altamente recomendável para quem está pensando em amar de novo.