22.12.09

Compilation



Para encerrar o ano, uma coleção de canções que provam a coisa mais óbvia do mundo: o amor é imprevisível, misterioso, surreal e ordinário ao mesmo tempo. Uma das mais belas canções do Eurythmics interpretada por Martha Wainwright, Leela James colocando mais alma nos Rolling Stones, A-ha arriscando um Depeche, que também aparece numa versão ao vivo, com a indefectível interpretação de Martin L. Gore. Marisa Orth, com sua I'm Not in Love mistura humor e coolzice, Florence + the Machine dá urgência à Halo, de Beyonce e Patricia Barber reformula She's a Lady, de Tom Jones. Sugarbabes faz versão acústica de uma das melhores canções do mais recente álbum do Keane e Bebel Gilberto transforma Sweet Dreams em bossa nova.

1. RDM ft. The Killers - Hotel California (6:05)
2. Leela James - Miss You (5:25)
3. A-ha - Velvet (4:18)
4. Martha Wainwright - Love Is a Stranger (3:40)
5. Bebel Gilberto - Sweet Dreams (Are Made of This) (3:20)
6. Depeche Mode - A Question Of Lust (4:32)
7. Florence & The Machine - Halo (3:48)
8. Sugababes - Spiralling (3:11)
9. Lily Allen - Not Fair (Doc Fritz Uncool mix) (4:14)
10. Dido - Here With Me (Chillin' With The Family Mix) (5:19)
11. Eurythmics - Love Is A Stranger (1982) (3:44)
12. Patricia Barber - She's A Lady (Tom Jones) (4:09)
13. Marisa Orth - I'm Not in Love (5:21)
14. A-ha - A Question of Lust (3:51)

Aqui.

9.12.09

Muito Funky



Faixa do novo DVD/Blu-ray de George Michael, Live in London. Um visual impecável, repertório divertido e sem aquela pose de quem está o tempo todo querendo provar algo ao espectador. GM está à vontade, em ótima forma e o público todo parece estar resgatando algum momento mágico da juventude embalado por Father Figure, Faith, Freedom, Too Funky ou Spinning the Wheel. Recomendo muito.

1.12.09

Tarantino apagando fogo com gasolina



Bastardos Inglórios prova mais uma vez a genialidade estética de Quentin Tarantino, ainda que lide de forma perigosa com a violência e suscite uma espécie de catarse histórica um tanto irresponsável. Mas, acima de tudo, cumpre um dos papéis mais importantes do cinema: provoca reflexões sobre a experiência humana. É o refinamento de um estilo que marcou com sangue o cinema das últimas décadas embalado por um trilha sonora desavergonhadamente pop, como bem se pode ver no vídeo acima.

27.11.09

Compilation



Volume dois de uma das primeiras compilações Cafeína (link atualizado), com mais versões de Slave to the Rhythm, incluindo uma de Bebel Gilberto exclusiva do iTunes. Não percam Adriana Calcanhotto cantando Me Dê Motivo, hit de Tim Maia e a voz cristalina de kd Lang em Upstream.

1. Grace Jones - Slave To The Rhythm (4:22)
2. Shirley Bassey - I Love You Now (3:45)
3. Joss Stone - You Got The Love (3:34)
4. Robin McKelle - Abracadabra (3:34)
5. Timi Yuro - Call Me (2:50)
6. Grant Lee Phillips - Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me (4:07)
7. Lanny Gordin e Adriana Calcanhoto - Me Dê Motivo (3:51)
8. kd lang - Upstream (3:37)
9. Gladys Knight and the Pips - Help Me Make it Through the Night (4:20)
10. Marina Lima - Como Dois e Dois (3:46)
11. Samon Kawamura feat. Laura Lopez Castro - No Te Puedo Ver (5:23)
12. Serge Gainsbourg - Chez Les Yé-Yé's (Minimatic Remix) (4:31)
13. The Juju Orchestra feat. Katia B - Não Posso Demorar (6:28)
14. Bebel Gilberto - Slave to the Rhythm (3:12)

Aqui.

19.11.09

Dirty Harry



"Go ahead, punk, make my day."

Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, é a primeira aventura do detetive que sedimentou a fama de mau que Clint Eastwood fez questão de preservar pelo resto de sua carreira. A trilha sonora primorosa é assinada pelo mago Lalo Schifrin que, entre outras coisas, compôs o inesquecível tema da série Missão: Impossível. Um filme com uma estética de fazer cair o queixo e diálogos emblemáticos que ficaram cristalizados para sempre na cultura pop.

13.11.09

Sheldon Clones


Cena da SitCom mais engraçada e bem escrita dos últimos anos, The Big Bang Theory.

12.11.09

Guilty Pleasure



"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."
Virginia Woolf

11.11.09

Mary e Max



Cena da animação Mary e Max, com as vozes de Toni Collette, Philip Seymour Hoffman e Eric Bana, com uma atmosfera melancólica e tristonha, além da trilha sonora de primeira – incluindo uma cena memorável com a versão do Pink Martini para Que Sera, Sera (Whatever Will Be, Will Be).

10.11.09

Beth Goulart faz Clarice Lispector



"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."

Beth Goulart escolheu muito adequadamente o texto Prece para terminar seu monólogo em que faz Clarice Lispector no teatro. Apesar de certos maneirismos exagerados e uns tropeços na hora de reproduzir a língua presa da autora falecida em 1977, parece que a atriz encontrou um equilíbrio interessante na sua montagem intitulada "Simplesmente Eu. Clarice Lispector". O cenário e o figurino são elegantes e primam pela sofisticação da simplicidade, tal como a linguagem dessa que é uma das mais intrigantes e - curiosamente - mais acessíveis escritoras da língua portuguesa. Saí do teatro pensando se não é exatamente isso que nos falta: autores que usem uma linguagem simples para dizer coisas complexas e que de certa forma nos revelem de maneira contundente – ao contrário dos pseudointelectuais que empilham clichês acadêmicos para dizer quase nada.

A peça esteve em Porto Alegre no final de semana e segue para o interior do Rio Grande do Sul, numa turnê promovida pelo SESC, com ingressos a preços populares. Mais informações aqui.

7.11.09

Another false alarm

“Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Real arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm“

[Johnny Marr e Morrissey]


Quem é você? De onde veio esse olhar esperto que me desconcertou da forma mais inesperada ontem à noite? Que soprou na minha orelha uma frase que eu já tinha esquecido, uma sensação que pra mim já não existia mais. Você, que me tirou a atenção de tudo à volta quando arrumou a meia, passou a mão pela coxa e ajeitou-se na cadeira como se soubesse que o meu olhar lhe tinha encontrado. Você, que restaurou algo em mim. Algo cujo nome eu tenho ainda medo de pronunciar: o levante que, de tanto cair, não me sinto seguro para alçar. E me viu no chão, com a ternura de quem realmente acredita na minha capacidade de levantar, sem saber que por você talvez eu o fizesse. Por aquele olhar esquivo e juvenil que durou menos de um segundo na despedida que praticamente não aconteceu. Não olhe para trás, não me veja, não me enxergue. Desapareça dentro da noite abafada de Porto Alegre na primavera, pisoteie as flores roxas de ipê na calçada sem lembrar-se dos meus olhos apaixonando-se timidamente pelo seu mistério. É melhor assim, vamos deixar o mistério ser, ainda que uma parte contente de mim deseje encontrar você novamente, o resto lhe quer a uma distância segura. Porque o resto de mim é medo e eu não quero ser o homem que só tem isso a lhe oferecer.

29.10.09

Cinema à Mostra



Todos os anos, a assessoria de imprensa da Mostra de Cinema de São Paulo tem a tarefa inglória de resumir o enredo de cada um dos filmes da programação em apenas duas linhas. Aí você acaba com sinopses como "travesti precisa lidar com o namorado viciado em drogas e o filho psicótico enquanto enfrenta problemas de saúde". Acaba que todos os enredos soam esquisitos e, muitas vezes, assustadores.

Nesses dois dias em São Paulo, consegui assistir a sete filmes. Por enquanto os documentários se destacam:

O Menino Certo (Unmistaken Child) acompanha a busca de um monge tibetano pela próxima encarnação do Lama Konchog. O menino "escolhido" tem menos de um ano de idade e é quem cativa de imediato a plateia do filme. Comovente, com um senso de humor singelo e a câmera atenta do diretor israelense Nati Baratz, a película não nos deixa perder nenhum detalhe sutil nessa história de superstições e crenças que demoram a fazer sentido para qualquer ocidental.

American Swing narra a ascensão e queda do primeiro clube de swing dos Estados Unidos, o Plato's Retreat. O diretor Matthew Kaufman estava presente e contou como conseguiu as imagens em VHS e película que usou no filme. O problema com qualquer documentário americano sobre alguma maravilha dos anos 1970 é que, quando o filme chega à década seguinte, com a descoberta da AIDS e as dificuldades econômicas dos EUA, praticamente vira um melodrama. Sorte que neste caso os depoimentos seguram muito bem o humor do filme.

Dentre os filmes de ficção, algumas surpresas e decepções:

Patrik, Idade 1,5, filme sueco de Ella Lemhagen, conta a história de um casal gay que se muda para o subúrbio e decide adotar um bebê. A instituição responsável pela adoção, no entanto, envia para o casal um adolescente de 15 anos problemático e com um passado de violência. É curioso ver que até a hipocrisia é diferente na Suécia. Um filme honesto, engraçado e comovente.

Morrer como um Homem, do português João Pedro Rodrigues, o mesmo diretor de O Fantasma, é o filme do resumo que eu citei no primeiro parágrafo. O diretor utilizou travestis reais para interpretar os papéis. O ator principal - cujo personagem que diz se chamar Tônia em homenagem a Tônia Carreiro - simplesmente não tem profundidade para segurar o filme, mas a divertida Maria Bakker rouba a cena. No entanto, as tomadas são demasiadamente longas e o roteiro, cheio de buracos.

An Education (foto), filme inglês da diretora dinamarquesa Lone Scherfig e com roteiro ágil de Nick Hornby (Alta Fidelidade e Um Grande Garoto) foi o mais interessante de todos até agora. Conta a história da menina inglesa de subúrbio com aspirações um tanto modernas para a época que se envolve com um charlatão de vida boa. Baseado na biografia da jornalista Lynn Barber, que hoje escreve para o Sunday Times, o filme revela o talento da jovem Carey Mulligan e tem o ótimo Alfred Molina no papel do pai repressor, além de uma participação impagável de Emma Thompson como a diretora da escola. Imperdível.

Agora, se puder, fuja de O Brilho de uma Paixão, da sempre chata Jane Campion, sobre o romance do poeta John Keats e uma garota da sociedade e Tokyo, filme em três partes, dirigidas por realizadores ditos "modernos", sobre a capital japonesa. Enfadonhos, despropositados e pretensiosos, são uma verdadeira punição a quem vai ao cinema.

25.10.09

Mergulho



O amor é um mergulho. Na escuridão, na incerteza. Pode-se dar de cabeça num recife ou de cara na porta. E muitos de nós estão prontos para mergulhar, escalando o rochedo com valentia até o pico mais alto para saltar, onde o vento sobra espalhando cheiro de perigo e mar. Outros ficam bem longe da costa e preferem o cimento da solidão. O amor requer bravura. A solidão mais ainda, porque às vezes ela é a escolha mais acertada. Dolorida, suada, triste, heroica, ardida. Olhos vermelhos, noites insones, o casal feliz na rua, aquela foto ressuscitada, o reencontro inesperado. Um texto sem final, um adeus que não acontece, um telefonema ou uma canção no rádio. E, contra todas as percepções comuns, nada disso é sintoma de falta de amor. A solidão não é o oposto do amor. Pelo contrário, é quando ele cansa de esperar que você mergulhe e te inunda por dentro da forma mais misteriosa. Quando você precisa acertar as contas com as palavras que não disse, com o adeus que não conseguiu dar e as portas que não teve coragem de fechar ou as janelas que não se achou pronto para abrir. Independente de você, o amor continua sendo e acontecendo ao seu redor. É preciso perder o medo. E mergulhar de uma altura possível.

16.10.09

Compilation



Eu estava assistindo ao programa do Jools Holland na semana passada e um dos muitos convidados era Gladys Knight, de quem o apresentador se disse um grande fã e pediu que cantasse uma de suas canções favoritas, If I Were Your Woman. Foi eletrizante. Eu já conhecia as versões de Alicia Keys e George Michael, ótimas, mas a original é imbatível. A de George Michel, registrada ao vivo no concerto para Nelson Mandela em 1988, foi extraída do vinil (sim, você leu bem) do single de Praying for Time, então há alguns clics e clacs. Ouçam as três e depois comentem.



Quem não cansa de me surpreender também pelo talento é KD Lang. No seu mais recente DVD, Live with the BBC Concert Orchestra, a canadense canta um repertório impecável que tem Western Skies, presente no seu primeiro CD solo, Shadowland, e de autoria de Chris Isaak. O tempero especial fica por conta do músico brasileiro Grecco Buratto que a acompanha e canta uns versos em português. Extraí o áudio do DVD para incluir na compilação. Há algumas canções às quais eu não consigo resistir, não importa quem esteja cantando. Aqui há alguns exemplos: Dream a Little Dream e Cry me a River. E, convenhamos, Diana Krall e Michael Bublé interpretando deixam tudo mais bonito.


Uma das coisas mais inesquecíveis para mim no final de Sex and the City foi a canção que encerra o episódio, You’ve Got the Love, na voz de Candi Staton – e que me lembrou um tanto os bons tempos do Massive Attack. Eis que a banda hype do momento, Florence + The Machine, gravou uma versão bem moderna da música que vale a inclusão. Ainda tem Adriana Calcanhotto em dose dupla: com Gatinha Manhosa, do seu Adriana Partimpim Dois e como compositora de Tua, lindamente interpretada por Maria Bethânia, presente no seu CD de mesmo nome recentemente lançado – Bethânia que aliás lançou novamente dois álbuns ao mesmo tempo: Tua e Encanteria, um melhor que o outro. Do novo de Bebel Gilberto tem Sun is Shining, com um arranjo espertíssimo. Ainda tem Lily Allen, The Supremes (sem Diana Ross, mas com a voz de veludo de Jean Terrell), Sharleen Spiteri, com sua assombrosa I'm Gonna Haunt You, os gaúchos do Delicatessen com I Love The Way You're Breaking My Heart e os Pet Shop Boys com a música tema da nova temporada da série britânica Beautiful People. A foto da capa é de Jean-Baptiste Mondino.

1. Gladys Knight + the Pips - If I Were Your Woman (3:17)
2. Diana Krall + Hank Jones - Dream A Little Dream Of Me (4:35)
3. kd lang - Western Skies (Live) (3:33)
4. Maria Bethânia - Tua (2:51)
5. George Michael - If You Were My Woman (Live) (4:02)
6. The Supremes - Stoned Love (3:19)
7. Lily Allen - Never Gonna Happen (Doc Fritz What's Happening mix) (4:07)
8. Sharleen Spiteri - I'm Going To Haunt You (2:34)
9. Florence + The Machine - You've Got the Love (2:48)
10. Alicia Keys - If I Was Your Woman/Walk on By (3:06)
11. Pet Shop Boys - Beautiful People (3:41)
12. Bebel Gilberto - Sun Is Shining (3:56)
13. Michael Bublé - Cry Me A River (4:14)
14. Delicatessen - I Love the Way You're Breaking my Heart (2:08)
15. Adriana Calcanhotto - Gatinha Manhosa (2:21)

Aqui.

6.10.09

Filme Catástrofe



Ontem eu saí do trabalho e entrei num loop de sucessões infelizes. O fato é que caiu um temporal daqueles de cinema em Porto Alegre. Mas não pense você que foi uma chuvinha daquelas como na cena final de Breakfast at Tiffany’s, com a Audrey Hepburn de gabardine abraçada no gatinho que adentrou um beco escuro e as gotas caem do céu para lhe acariciar o rosto ossudo e anguloso. Ou aquela em 300 que sedimentou a vitória dos espartanos liderados por Gerard Butler. Foi um temporal digno de filme catástrofe, em película de 70mm, com jeitão de Inferno na Torre, aquele com elenco estelar semi-aposentado, em que tudo parece despencar, inclusive o mundo.

Havia árvores no meio da rua, senhoras lutando contra o vendo com a sombrinha aberta pelo avesso – sem a poesia de Akira Kurosawa em Rapsódia em Agosto, que fique bem claro –, hordas de operadoras de telemarketing em tocaia dentro de uma farmácia e o louco da Rua André da Rocha cantando “Porto Alegre é demais...” Cheguei a imaginar a onda gigante de O Dia Depois de Amanhã quebrando a torre da Usina do Gasômetro em duas por cima da estátua de bronze de Elis Regina cantando o Arrastão. Ou dona Eva Sopher, no maior estilo Shelley Winters em O Destino de Poseidon, pendurada no lustre gigantesco do Teatro São Pedro.

Depois de esperar 20 minutos no ponto de taxi, dizer algumas barbaridades para os espertalhões que se jogavam no meio da rua tentando roubar a vez de quem estava na fila, finalmente consegui entrar no carro, que, segundo contou o condutor, costuma mesmo ficar na porta do Gruta Azul, famoso puteiro da cidade e só parou ali porque voltava de uma corrida. “Pior, meu amigo, é que com essa chuva não vai ninguém na Xoxoteca. Estou vendo que hoje eu fico sem serviço a noite toda.” É, eu sei. Também fiquei curioso e resolvi pesquisar no site da casa. Xoxoteca é “uma festa quente, muito sensual e cheia de surpresas (...) a melhor festa da semana”. Medo.

Mais 35 minutos para fazer um percurso de 5km, chego no meu prédio. Sem luz. Sete lances de escada, um cachorro furioso solto no sexto andar, o mesmo que rosna pra mim no elevador. Pelo menos para ele era um dia de sorte, pode finalmente me colocar a correr da forma mais humilhante imaginável. Chego em casa, tranco a porta, respiro fundo e percebo que o vendaval fez com que a porta da sacada se abrisse, alagando o quarto. Seco o chão, tomo banho, como alguma coisa, deito e penso: agora acabou. Toca o telefone, é do trabalho: “O fulano do jornal aquele quer que você traduza uma crônica com urgência, para hoje ainda, pode ser?”

Pode, eu não estava fazendo nada mesmo.

5.10.09

Estava demorando...


Madonna, que não participava do Saturday Night Live desde a década passada, fez uma participação no último episódio do programa ao lado de Lady Gaga – que aliás tem um corpão, mas a cara é um desastre. Ainda estou entre gostar e achar triste e patético o que Gaga faz.

25.9.09

Depeche Mode - Hole to Feed



Numa época de pura mediocridade no mundo videoclíptico, vem Depeche Mode com mais uma abordagem bizarra da nossa falta de personalidade, a juventude blasé que está se criando e babaquice nossa de cada dia. Adorei muito.

17.9.09

Compilation



Uma compilation estampada pela "estrombótica" Rossy de Palma. Tem para todos os gostos: novo single de Bebel Gilberto, em cover de Carmen Miranda, uns remixes gostosos de coisas do passado e la Calcanhotto em dueto com a boníssima Beatriz Azevedo. The Eurythmics chegam com uma das mais lindas composições dos Smiths, Fernanda Takai ataca de Michael Jackson, kd Lang canta lindamente uma canção do repertório de Ella Fitzgerald e muito mais.

1. Nicolette Larson - Lotta Love (The Lotta Nic Mix) (4:35)
2. Lena Horne - Where Is Love? (Remix) (4:50)
3. Fangoria - El Glamour De La Locura (3:11)
4. Bebel Gilberto - Chica Chica Boom Chic (3:04)
5. Julie London - Desafinado (Slightly Out Of Tune) (2:08)
6. Peggy Lee - I Love the Way You're Breaking My Heart (3:03)
7. Alison Moyet - The Man I Love (3:49)
8. Cassandra Wilson - Love Is Blindness (4:54)
9. Michael Bublé - You Don't Know Me (4:14)
10. Beatriz Azevedo e Adriana Calcanhoto - Cena (4:20)
11. Delicatessen - I'm through with love (6:10)
12. k.d. lang - Angel Eyes (5:14)
13. Eurythmics - Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me (3:26)
14. Fernanda Takai - Ben (3:10)

Aqui.

10.9.09

Perecível

I'd like to see the Riviera
and slowdance underneath the stars
I'd like to watch the sun come up
in a stranger's arms

E se? E se você pudesse namorar com quem realmente ama e sem quem não consegue viver? E se pudesse escolher quem lhe fizesse realmente as borboletas e lombrigas se debaterem na boca do estômago? Alguém que você consegue admirar, compartilhar, que te ensina e, acima de tudo, faz os pelos ouriçarem na nuca pela mera menção do nome?

E se fossem tudo e todos menos complicados e você pudesse chegar e dizer "eu não consigo seguir em frente porque ainda te amo" ou, pelo contrário, tivesse retidão para desabafar "eu jamais te amei do jeito que entendo que o amor deve ser"?

E se nada mais fosse empecilho para você absorver os dias com mais calma e menos ansiedade? Imagine se os sorrisos de quem trabalha com você fossem todos verdadeiros e, veja que maravilha, que você não vivesse entorpecido pela própria mentira que construiu e reafirma todos os dias. Que houvesse um equilíbrio entre você e o outro, entre as liberdades e as invasões, sem aprisionamentos.

E se este sentimento de inadequação permanente deixasse de existir e desse lugar a uma ligação afinada com o funcionamento de tudo? E se você não precisasse mais andar na corda bamba entre se esconder e chamar a atenção de todos ao ponto da loucura? E se a sua capacidade de abstração fosse esperta sem ser persecutória?

E se você pudesse simplesmente ser? Deixado em paz. No seu canto, mastigando as horas no seu passo, entendendo exatamente quando chega o momento certo para as coisas, do seu jeito, sem prazos nem cobranças. Sem achar que deve ao outro alguma ação ou sentimento ou que precisa participar de algo para fazer parte do todo. Que às vezes seu todo é você, e só você saberá o momento de se expandir ao mundo.

E se a vida fosse não concluir as coisas, mas levá-las adiante, adiante, adiante?

E se? E se? E se?

A letra é de Home, que Sheryl Crow gravou no álbum homônimo de 1997.

7.9.09

Fobia


Produzido por Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis, District 9 é um filme de ficção científica que gerou um hype anormal em seu lançamento. Bebe na fonte de uma série de exemplares do gênero, todos infinitamente superiores a ele - senti uma especial influência de O Quinto Elemento, ainda que despida de glamour e diversão, que, convenhamos, é o melhor do filme de Luc Besson.

No entanto, o primeiro longa de Neill Blomkamp utiliza o disfarce da ficção científica para falar sobre racismo e revelar a bagunça política de seu país de uma forma bastante criativa e contemporânea. Fala dos guetos, da segregação, pobreza e jogos burocráticos inescrupulosos através de câmeras de segurança, supostos noticiários de TV e outros equipamentos amadores de vídeo. O distrito 9 do título é uma menção ao distrito 6, criado na época do apartheid, um bairro de onde foram "retirados" todos os negros na década de 1970, na Cidade do Cabo - cerca de 60.000 cidadãos que foram relocados para viver em condições humilhantes de vida.

O problema desse tipo de filme é que a novidade se dilui em pouco tempo de projeção e a gratuidade do derramamento de sangue tira toda a credibilidade da realização. É bom ver algo novo nesse gênero tão cheio de clichês, mas seria melhor ainda se District 9 fosse um filme memorável. Pena que não é.

30.8.09

Compilation



1. Dido - I Don´t Believe in Love (3:52)
2. Ray Charles & Gladys Knight - I Wish I'd Never Loved You At All (3:11)
3. Simply Red - Holding Back The Years (4:19)
4. Federico Aubele Feat. Natalia Clavier - Este Amor (3:33)
5. Nikka Costa - Cry Baby (5:10)
6. Cat Power - It Ain't Fair (Aretha Franklin Cover) (5:16)
7. Leela James - I Want To Know What Love Is (7:13)
8. Alison Moyet - That Ole Devil Called Love (3:05)
9. Katia B - O Amor em Paz (4:46)
10. Rhythms del Mundo Feat. KT Tunstall - Because The Night (3:23)
11. Fangoria - Voy A Perder El Miedo (4:01)
12. Brenda Boykin - Be my Lover (Acoustic Bossa Remix) (3:27)
13. The Bird and the Bee - Don't Stop The Music (Rihanna Cover) (4:01)
14. Dinah Washington - Blue Skies (10:58)

Uma compilation pra quem precisa de um empurrãozinho para se apaixonar de novo. Começa com uma das faixas mais bonitas do álbum mais recente de Dido, Safe Trip Home, assombrosa e com aquele jeito de cantar que oscila entre o doce e o seco. Em seguida, surgem os acordes inimitáveis de Ray Charles circa 1988, com a ajuda luxuosa de Gladys Knight. Em 2005 o Simply Red decidiu dar novos arranjos a grandes sucessos no álbum Simplified, e é dele que vem essa Holding Back The Years assustadoramente desesperançosa – e mais linda do que nunca. Federico Aubele, freguês das Compilations, canta seu amor porteño, com o sussuro gostoso de Natalia Clavier. Nikka Out-Here-On-My-Own Costa mostra que cresceu em Cry Baby. Cat Power esfacela corações com It Ain’t Fair, antiga gravação de Aretha Franklin da época da Atlantic Records. Quem surpreende mesmo é Leela James, com sua versão nu-soul de I Want To Know What Love Is, da banda Foreigner, lembra?

Mas talvez essa compilação não existisse se eu não tivesse ouvido Alison Moyet numa dessas noites de vinho tinto. Nos primeiros versos de That Ole Devil Called Love eu soube que precisava compartilhar aqui esta pérola. Kátia B., ex-integrante da dupla Chicotinho e Salto Alto, gravou um álbum bem interessante no ano passado, e é dele esta versão de Amor Em Paz, clássico da Bossa Nova. Because The Night, de Patti Smith e Bruce Springsteen, chega com KT Tunstall e os cubanos do projeto Rhythms Del Mundo. A voz grave de Alaska, vocalista da banda espanhola Fangoria, ficou perfeita nesse arranjo mínimo de Voy a Perder El Miedo, que dá nome à compilação – atente para a letra, você merece. A californiana Brenda Boykin me foi apresentada pelo Marcelo e eu escutei o CD uns 3 dias seguidos. Também da Califórnia são os integrantes de The Bird and the Bee, cujo maior mérito foi transformar completamente o hit chiclete de Rihanna. A viagem termina com uma verdadeira obra-prima de Dinah Washington. São quase 11 minutos de algo que só pode ser chamado de mágica - o lugar mais bonito a que a música pode levar.

*Na capa, Muhammad Ali fotografado pelo gênio Gordon Parks.

AQUI.

26.8.09

Este blog subiu no telhado

Não sei se é falta de tempo, se perdi o tesão de escrever no blog, ou se de repente o fato de o meu trabalho 9-6 ser justamente escrever, acabe me exaurindo de inspiração. O fato é que este blog está às traças. Estaria mentindo se eu dissesse que não escrevi nada. Até escrevi. Coisas pessoais, meio sem filtro algum, algumas um pouco ressentidas, alguns filmes - eu detestei Brüno – escrevi sobre o mau uso do apóstrofo em nome de estabelecimentos comerciais, critiquei a Xuxa, até carta de amor eu escrevi. Todas as vezes achei que estava péssimo e apaguei. Não sei se é semancol, senso crítico exagerado ou sabotagem. A questão é: está difícil postar aqui.

Então esta semana eu posto uma compilação, porque prometi à Lívia (e eu sou um amigo de palavra) e depois a gente vê.

(Óia, até que eu consegui postar alguma coisa, viu? Nem tudo está perdido.)

11.8.09

4.8.09

Kransky Sisters



Se Tim Burton tivesse 3 tias australianas, seriam as Kransky Sisters. Não perca também The Sounds of Silence e tudo mais que tem no Youtube.

31.7.09

Compilation



1. Marina Lima - Eu Vi o Rei (5:41)
2. Gabriella Cilmi - Cigarettes & Lies (3:07)
3. Mark Ronson Ft. Tiggers - Toxic (4:05)
4. Snow Patrol - Teenage Kicks (2:25)
5. The Bloodsugars - Self-Control (4:20)
6. Federico Aubele Feat. Sabina Sciubba - Otra Vez (3:11)
7. The Roots & Erykah Badu - I Wanna Be Where You Are (5:33)
8. Cat Power - I’ve Been Loving You Too Long (To Stop Now)(3:36)
9. Hall & Oates - Baby Come Back (3:35)
10. Rafter - If You Leave (3:25)
11. Zélia Duncan - Boas Razões (2:41)
12. Roisin Murphy, Sinead O'Connor & Micachu - I'm Every Woman (3:26)
13. Freemasons feat. Sophie Ellis-Bextor - Heartbreak Make Me A Dancer Acapella (3:09)
14. Michael Bublé - Feeling Good (3:57)
15. Soul II Soul - Keep On Movin' [Featuring Caron Wheeler] (6:01)

Aqui

30.7.09

The Linux Experiment


Ando experimentando os OS Linux. Acima, o navegador Konqueror do Open Suse, muito mais bonito que o Ubuntu, e muito funcional. Mas ainda acho algumas coisas esquisitas demais.

26.7.09

Sunday Classics



Grace Kelly é flagrada pelo horripilante Sr. Thorwald em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954).

23.7.09

3 é demais



Coco Chanel traz Shirley MacLaine vivendo a estilista já idosa e a slovaca Barbora Bobuľová faz Chanel jovem. O filme é apenas razoável, porque é uma daquelas produções feitas para a TV, então falta ousadia e orçamento. Mas tem momentos bonitos, como esta cena aí, que representa bem o perigo dos triângulos amorosos.

20.7.09

Galhos

I'm a tree that grows hearts
One for each that you take
You're the intruder hand
I'm the branch that you break
(Bjork - Bachelorette - 1997 - do álbum Homogenic)

Os versos de Bjork, extraídos do single Bachelorette servem como uma metáfora bem interessante para tratar a nossa natureza afetiva. A letra sugere que somos todos árvores cujo fruto é o amor. Mesmo que nos roubem "corações", nossa composição primordial nos possibilita brotar ainda mais frutos. Há, claro, estações em que secamos e, no lugar do sentimento fresco e suculento, só temos galhos quebradiços, frágeis e sem graça.

Para a árvore existe a certeza da chegada da primavera uma vez ao ano. Já nós somos obrigados pelas circunstâncias a viver outonos que nos parecem exageradamente longos. Nesses períodos, ficamos sujeitos a "intrusos" que, como diz a letra, quebram nossos galhos. Alguns por não enxergarem que estamos vivendo nessa estação infrutífera. Tudo que veem quando nos olham é uma árvore como todas as outras. Esses tentam nos escalar em busca daquela fruta tão gostosa porque têm certeza de que nas copas mais altas há de ter um exemplar vermelhinho e lustroso esperando por eles – e vão nos quebrando no caminho. Chegam lá e não encontram absolutamente nada, além da vista privilegiada para o deserto – ou como dizia Marina Lima na canção de Alvin L., "Solidão com vista pro mar".

O importante é a gente saber que tipo de árvore se é (ou está). E entender que a natureza é sábia e não há inverno que dure para sempre.

18.7.09

O Destino


Lição de uma estrangeira sobre como ver o trabalho. Tem muito brasileiro precisando aprender com ela.

*Cena de Edifício Master (2002), excelente documentário de Eduardo Coutinho.

17.7.09

Recorte


"Minha mãe sempre me disse que eu ia escrever um livro, gozado. A gente se esforça, batalha, luta, faz psicanálise, vai ao teatro, tudo para se constituir, para ter recorte.
Aí, na primeira surtadinha faz o quê? O que a mãe queria."

Adriana Calcanhotto, em Saga Lusa, a história de quando os anti-inflamatórios lhe causaram uma reação alérgica (e lisérgica). Um livro delicioso. Devo já devo ter lido umas três vezes. Está sempre à mão para um momento carente de doçura e bom humor.

16.7.09

A Origem das Espécies

Versão indiana de uma música muito famosa. É trilha sonora de um musical de Bollywood e os autores do sucesso original nunca receberam créditos.

Ouça e descubra.

10.7.09

Escolhas, tortas e disciplina


Quem é de Porto Alegre sabe que uma das melhores confeitarias da cidade, a Max, tem uns bolos e tortas imbatíveis. São realmente simples, mas deliciosos. Outro dia eu estava esperando para ser atendido e na minha frente estava uma moça – de uns trinta e poucos anos, espremida nas roupas que pareciam ser de um número abaixo do seu e segurando impaciente um molho de chaves absurdamente lotado na mão direita e celular na outra – que fazia perguntas constantes à atendente, pois não sabia exatamente qual torta levar. Até que, para minha surpresa e da balconista, ela pediu desculpas, dizendo que não ia mais levar nada e foi em direção à saída.

Todos os dias a gente faz escolhas. É redundante falar nisso. Mas eu insisto em dizer e dizendo eu reforço mais para mim mesmo do que para fora. Lembro o tempo todo que, por muito tempo, as minhas escolhas mais relevantes foram feitas sem que eu sequer me desse conta de que estava escolhendo. Optar por um caminho em vez de outro na volta para casa, escolher a que entrevistas de emprego me submeter, quais amigos realmente me respeitam e querem bem, que relações amorosas levar adiante ou que atitudes tomar com membros da família.

A verdade é que mesmo a pessoa mais calculista e consciente está sujeita a escolher “errado”. A medida desse “errado”, claro, é o tanto de felicidade e frutos que nos trazem as consequências da escolha. Eu já cheguei a pensar que refletir demais sobre o ato diário de escolher tirava a espontaneidade da vida. Quantas vezes você já não se deparou com a escolha entre o que parece certo de acordo com estatísticas calculadas e o que a sua vontade lhe manda fazer?

Eu poderia comer esse bolo de chocolate reluzente com recheio de doce de leite e nozes picadas, polvilhado de canela – que é meu desejo imediato – ou parar por um segundo e refletir se eu realmente posso bancar essas calorias ou se não me faria mal em longo prazo. O primeiro impulso às vezes é achar que, comendo o doce, estaríamos deflagrando um processo de autodestruição irrevogável, que essa indulgência é demais para nós, que o mundo é feito dos disciplinados. A frase preferida de quem pensa assim é “depois de passada a vontade, a gente percebe que fez a escolha certa”.

disciplina
Substantivo feminino
(...)

5. Derivação: por extensão de sentido.
obediência a regras de cunho interior; firmeza, constância


Ex.: para vencer na vida é preciso disciplina.


6 Diacronismo: antigo.
castigo, penitência, mortificação
Fonte: Dicionário Houaiss


Ora, depois de passada a vontade, o que me resta é amarga frustração de não ter obedecido ao meu desejo. Não é uma questão de merecer ou não, de poder ou não poder, de engordar ou emagrecer, é muito mais do que isso: é sentir. E se eu preciso olhar atentamente alguma coisa, não é o momento da escolha, mas sim observar com muita atenção o meu sentir, que vem bem antes do ato de optar. Eu não me torno um sujeito mais disciplinado por não comer o bolo. Na realidade, disciplinado mesmo é aquele que consegue definir o tamanho certo da fatia que lhe saciará o desejo e não lhe fará mal.

Não acho que a moça da confeitaria tenha superado sua tentação. Acho que ela conseguiu fugir dela, ainda que momentaneamente. Só que enquanto ela ficar obcecada em fazer as escolhas que os outros lhe profetizaram serem as corretas, vai continuar não enxergando que seus impulsos estão ligados a sentimentos mais profundos do que a banalidade prática de dizer sim ou não a uma torta de limão. É estabelecendo essa comunicação entre o sentir e o pensar que ela vai conseguir entrar na confeitaria, pedir seu doce predileto, sabendo a quantidade certa para ela, ciente das consequências e prazeres de saborear uma boa fatia de bolo.

*Na foto, Robin Williams e Bobby Cannavale, em Segredos da Noite (The Night Listner, 2006). Sobre um homem que não sabe que escolhas fazer.

6.7.09

O inverno são os outros

Quando faz muito frio eu fico contente, mas também fico muito jururú. Me alegra não sentir mais calor, não suar (tanto, porque continuo suando, sou quente – no mau sentido), tomar mais chá, cappuccino, fazer amendoim doce e comer assistindo a um filme em preto e branco. Mas o vento gelado do inverno também me deixa vulnerável, saudoso, melancólico e muito sozinho. Aí me apego mais a livros, filmes e gentes, procurando neles o que há de mais diferente, mais esquisito, mais doloroso. Acho que me interessa mesmo ver nos outros o que ninguém mais enxerga, ver os filmes que ninguém quer ver, procurar as coisas que são interessantes por não se encaixarem em categoria alguma, a graça para mim é essa. Canto pela casa a mesma canção por horas a fio, vou e volto no tempo, folheio livros em busca de uma frase que reitere quem eu sou.

Aí, irrompe um sol lindo, numa manhã que amorna com as horas e um sol que deita a cabeça no meu colo, e pronto. Quem era eu mesmo?

29.6.09

Good morning, Charlie!



"Era uma vez três panterinhas que entraram para a polícia feminina. E a cada uma foi destinada uma missão perigosa. Mas eu as afastei de tudo isso. E agora trabalham para mim.
Meu nome é Charlie."


Uma das minhas memórias televisivas mais remotas e pela qual guardo um imenso afeto é a de esperar ansiosamente pela exibição às quartas-feiras do seriado As Panteras, numa época em que a Globo passava várias séries americanas na faixa das 21h. Mas para expressar melhor a minha ansiedade, é preciso especificar um detalhe técnico.

Charlie's Angels começou nos Estados Unidos em 1976 e era criação de Aaron Spelling, o mago da televisão que também criara outros títulos de sucesso no Brasil como A Ilha da Fantasia, Barrados no Baile e Melrose Place, só para citar alguns. Mas quando eu já tinha idade para assistir à série na Quarta Nobre, ela já estava no seu segundo ano. Originalmente ela durou cinco temporadas, de 76 a 81.

O elenco também mudava bastante. Durante a primeira temporada, os anjos de Charlie eram: Jaclyn Smith (Kelly Garret), Kate Jackson (Sabrina Duncan) e Farrah Fawcett-Majors (Jill Munroe). Farrah na época era casada com Lee Majors (o Homem de Seis Milhões de Dólares) e fazia algum sucesso como modelo. Eis que um certo poster que a retratava de maiô vermelho vira febre nos EUA e ela é alavancada para uma fama imediata, com propostas de melhor salário e oportunidades diferentes. Por isso, resolveu deixar a série logo no final da primeira temporada.

Para justificar sua saída da trama, os roteiristas criaram Kris Munroe, irmã de Jill interpretada por Cheryl Ladd, que chegaria para substituí-la a partir da segunda temporada. Foi exatamente neste ponto que eu comecei a assistir às Panteras, ou seja, eu havia perdido toda a famosa primeira temporada com a mais famosa ainda Farrah Fawcett. E toda a minha empolgação para ver a Quarta Nobre era calcada na esperança de que algum episódio da primeira temporada fosse reprisado, para que eu conhecesse Jill Munroe em ação - ela até participou de alguns episódios posteriores, mas não era a mesma coisa.

Farrah Fawcett era uma entidade. A foto do maiô vermelho aparece até em "Os Embalos de Sábado à Noite", no quarto de Tony Manero, e é o poster de pin-up mais vendido da história, com 12 milhões de cópias comercializadas. Farrah estava presente em mais lugares do que qualquer série ou filme conseguia chegar. O mais irônico de tudo é que ela deixou o seriado de Aaaron Spelling por propostas de trabalho que nunca se concretizariam - um pouco pela relação conturbada de Lee Majors com o sucesso da então esposa. Farrah estava por toda parte, o público a conhecia, mas ninguém sabia dizer o que mais ela tinha feito além de Charlie's Angels – sua profissão era a fama.

Um dia eu conversava com um fã inglês do seriado, colecionador experiente da memorabília da série e perguntei quanto valia uma foto autografada do elenco. Ele respondeu imediatamente, "depende, se a Farrah estiver na foto é mais caro, muito mais caro".

O meu dia finalmente chegou quando a Globo, anos depois, passou As Panteras para a faixa vespertina da programação, na Sessão Aventura. O seriado foi transmitido desde o começo e pude acompanhar a tão desejada primeira temporada. A esta altura, claro, eu já havia desenvolvido uma relação de proximidade com as meninas de Charlie. Nunca simpatizei com a insípida Tiffany (Shelley Hack), por exemplo. Mas adorava a breguice divertida da ruiva Julie (Tanya Roberts), uma modelo que virou detetive e a última a ser admitida no elenco. Tanya participaria depois de That 70's Show, como a mãe de Donna.

A temporada de estreia do seriado tem uma dose extra de charme se comparada às outras. Não só pela presença de Fawcett, mas muito pelo esforço constante dos roteiristas em ousar – dentro do que lhes era permitido na época – no que diz respeito aos papéis femininos. Mas eram contraditórios, mesmo para a década de 1970. Ao mesmo tempo em que as personagens eram mulheres de fibra e coragem, não dispensavam o guarda-roupas digno de editorial de moda. No final das contas Farrah é uma das principais razões do status de culto que Charlie's Angels adquiriu.

E Farrah se foi semana passada, aos 62 anos, depois de 27 anos ao lado do companheiro Ryan O'Neal.

Godspeed, angel.

20.6.09

Compilation



Agora é Cafeína Compilations. Esta é para frio com sol. Atentem para Gabriella Cilme, uma Amy Winehouse adolescente e australiana, com sua voz de trovão cantando Cry Me a River, cover de Justin Timberlake. Na capa, Julie Christie. Obrigado ao Marcelo por Ella. :)

1. Esther Phillips - Let's Move & Groove (3:29)
2. Bettye Swann - Little Things Mean a Lot (3:43)
3. Ella Fitzgerald - You Do Something To Me (2:23)
4. Trash Pour 4 - You´re So Vain (3:24)
5. Gloria Estefan - Don't Let This Moment End (Ballad Version) (4:14)
6. Dinah Washington - Easy Livin' (4:58)
7. Nina Simone - I Am Blessed (Wax Tailor Remix) (3:03)
8. A Camp - It's Not Easy To Be Human (2:35)
9. Elton John - I Guess That's Why They Call It the Blues (4:45)
10. Gabriella Cilmi - Cry Me a River (3:41)
11. Moloko - Sing It Back (Acoustic) (4:11)
12. Supreme Beings of Leisure - Angelhead (Featuring Lili Haydn) (4:49)
13. Maroon 5 - This Love (C. Tricky Stewart) (2:57)
14. k.d. lang - Barefoot (Live by Request) (4:20)

AQUI.

16.6.09

Bom e ruim

E sabe que Divã, baseado no romance de Martha Medeiros, não é tão ruim quanto parece? Eu achei que seria mais uma daquelas comédias brasileiras de divulgação ampla, orçamento generoso e elenco global, mas que não têm um pingo de originalidade. Divã é algumas dessas coisas, mas tem um roteiro que não é exatamente melhor do que a média das comédias românticas, mas é certamente diferente – e poucas coisas são melhores do que ouvir diálogos diferentes quando o que se espera é mais do mesmo.

Divã não foi feito com muito dinheiro. Há uma cena em que a protagonista encontra o ex-marido no supermercado e tudo que se vê nas prateleiras são garrafas e recipientes com líquidos coloridos e empilhados, como se fossem alegorias de palco numa peça de teatro. A única coisa identificável no supermercado é o xampu do patrocinador, rótulos bem claros e grande quantidade de produtos enquadrados pela câmera. É triste que o product placement do cinema brasileiro seja ainda tão patético e didático. Não espantaria a ninguém se a cena em questão fosse parte de uma novela da faixa das 19h, mas cinema exige um pouco mais de dignidade. A direção de arte parecia estar trabalhando em sistema de guerrilha, aproveitando sempre o mínimo e o esteticamente correto para dar verossimilhança aos sets. Talvez por isso tenha passado longe no quesito personalidade.

A história é a seguinte: Lília Cabral é Mercedes, casada com Gustavo (José Meyer), tem dois filhos ótimos e um casal de amigos. Resolve um belo dia fazer terapia e, ao mesmo tempo em que conta suas histórias ao analista, entram os flashbacks (ou flashforwards) para mostrar ao espectador como tudo aconteceu. O analista nunca aparece claramente, ele é sempre a figura quase invisível da autoridade psíquica e mesmo sem enxergá-lo, sabemos que ele está lá – como todo bom terapeuta tem de ser. É possível, inclusive, imaginar as perguntas que ele faz a ela sem que nem precisemos ouvir sua voz. A interação da personagem com o terapeuta é certamente um dos pontos altos desta adaptação.

Mercedes acaba tendo um caso extraconjugal - com um antropólogo de supostos 40 anos, interpretado por Reynaldo Gianecchini, com quem tem uma das cenas mais engraçadas do filme – e acaba optando por se separar do marido. Depois disso, começa a sair com um ainda mais jovem, 19 anos (Cauã Raymond), até ficar sozinha de verdade pela primeira vez e experimentar intensamente a sensação de não saber direito quem é depois de tanto tempo vivendo para o parceiro. Entre um desencontro amoroso e outro, cenas muito engraçadas e outras bastante medíocres. Muito embora seja bom ver o cinema brasileiro abraçando gêneros e experimentando fórmulas para um dia acertar, ainda está difícil não nivelar por baixo. Um amigo sempre diz “olha, até que para ser filme brasileiro, este não é ruim”. Eu não tiro a razão dele, mas também não concordo 100%.

É fato que o cinema brasileiro ainda não tem profissionais afinadíssimos como acontece nos Estados Unidos ou na Europa – até porque não temos tradição, escolas, veteranos capacitados a ensinar etc. – nossos orçamentos são estrangulados e toda a forma de distribuição aqui é feita pelo cartel comandado por uma distribuidora toda-poderosa. Os independentes precisam chamar muita atenção em festivais para serem razoavelmente distribuídos, o que, em geral, é exceção. Então quem faz cinema não pode depender da renda que ele oferece, ou seja, o cinema acaba sendo um hobby, enquanto que as carreiras na publicidade ou na televisão servem de fonte principal de renda.

É o caso do diretor José Alvarenga Júnior, que no cinema mesmo só fez filmes da Xuxa, dos Trapalhões e Os Normais – O Filme. Na TV dirigiu Sai de Baixo, Os Normais e A Diarista (entre outros). Acabou que ele trouxe para Divã, a comédia física e pastelão dos programas humorísticos televisivos e isso me causou um desconforto muito grande. Não são raros nesta adaptação do livro de Martha Medeiros, os momentos em que a gente tem aquela sensação de já ter visto uma cena em algum humorístico de sexta-feira à noite ou em alguma comédia romântica produzida em Hollywood, e de já ter visto melhor. Mas há quem vá se divertir muito com isso. Porque, apesar do formato bastante falho, Lília Cabral é ótima humorista e o texto tem momentos de honestidade interessantes, o que é sempre uma boa surpresa.

13.6.09

Disgusting glory



Morrissey apresenta a música dizendo "Life, in all its disgusting glory, goes on". E não é qualquer música, é I'm Throwing My Arms Around Paris, destaque do álbum mais recente, Years of Refusal. Acho que depois de anos de recusa, a pessoa merece abraçar Paris, não? Desde que não seja Paris Hilton, é claro.

12.6.09

10.6.09

Waiting for the night



O Depeche Mode deve vir para cá em outubro deste ano. Eles estão rodando a Europa com a Tour of The Universe, mas parece que o vocalista Dave Gahan teve de ser operado às pressas dia 28 de maio para a retirada de um tumor maligno - o que ocasionou uma série de cancelamentos. O site oficial diz que está tudo certo para a vinda ao Brasil nos dias 24 e 25 de outubro. Essa gravação bem ruinzinha aí em cima já mostra que será um grande show. Os ingressos começam a ser vendidos dia 25 de julho e os preços ainda não foram divulgados.

No set list:

In Chains
Wrong
Hole To Feed
Walking In My Shoes
It's No Good
A Question Of Time
Precious
Fly On The Windscreen
Jezebel
A Question Of Lust
Come Back
Peace
In Your Room
I Feel You
Policy Of Truth
Enjoy The Silence
Never Let Me Down Again

Bis 1
Stripped
Master And Servant
Strangelove

Bis 2
Personal Jesus
Waiting For The Night (Bare Version)

Tendo In Your Room eu já fico feliz. :)

Digamos

Digamos que você resolva fazer um blog. Digamos que neste blog você jamais revele seu nome. Digamos que você flerte com vários visitantes do blog e troque Orkut, MSN, Twitter, Facebook etc. Digamos que no seu perfil do Blogger, Orkut, MSN, Twitter, Facebook etc. constem apenas figurinhas divertidas e nenhum (ou quase nenhum) vestígio de quem você realmente é. Digamos que até no seu perfil verdadeiro do Orkut você só tenha uma foto desfocada da orelha esquerda. Digamos que ninguém tem nada com isso porque, afinal de contas, os perfis são seus e você faz deles o que bem entender. Digamos que você resolva desabilitar os comentários do seu blog dizendo que cansou de grosserias e odeia quem se esconde atrás da máscara do anonimato para dizer o que bem quiser.

Heloooo?!

8.6.09

Compilation



1. Leela James - It's A Man's Man's Man's World (5:06)
2. Ben Sollee - A Change is Gonna Come (3:37)
3. Federico Aubele - Ante Tus Ojos (4:20)
4. Chaka Khan/The London Symphony Orchestra - I'm in the Mood for Love (3:49)
5. Jamie Cullum - You and the Night and the Music (4:09)
6. Fiona Apple - Why Try To Change Me Now? (5:16)
7. Nikka Costa - The Rules Of The Road (3:33)
8. Goldfrapp - Monster Love (Live Acoustic Version) (4:38)
9. Moloko - Familiar Feeling (Acoustic) (4:50)
10. Girls Aloud - With Every Heartbeat (4:00)
11. Madonna - You Must Love Me (Live in Athens) (4:41)
12. Sophie Ellis-Bextor - Jolene (2:42)
13. Lily Allen - Fuck You (Doc Fritz Fossa Nova mix) (3:46)
14. Wax Tailor - The Man With No Soul (Feat Charlotte Savary) (3:34)
15. Maroon 5 - This Love (Thiago Correa Samba-Rock Mix) (3:20)

AQUI

Monday Classic


Warren Beatty e Natalie Wood chegando para a cerimônia do Oscar em 1962.

5.6.09

Compilation



Uma compi para ouvir no frio, fazendo a coisa que você mais gostar. Ou não fazendo nada. Tem até Susan Boyle cantando Cry Me A River (muito bem, diga-se de passagem), Natalie Merchant canta Gershwin, Noisettes cantam The Killers, Tricky canta Kylie, a mais bonita do álbum solo de Daniel Merriweather e uma das minhas favoritas do Keane. É isso aí. Bom inverno para você também.

1. Paula Cole Band - I Believe In Love (Guitar Version) (4:13)
2. Daniel Merriweather - Cigarettes (3:24)
3. Carpenters - Caught Between Goodbye and I Love You (3:58)
4. Noisettes - When You Were Young - Live Lounge (4:17)
5. Keane - You Don't See Me (4:03)
6. Mark Ronson Ft. Lily Allen - Oh My God (3:35)
7. Natalie Merchant - But Not for Me (3:28)
8. Susan Boyle - Cry Me a River (4:19)
9. Adele - Make You Feel My Love (3:32)
10. M People - Search For The Hero (US Remix by David 'Jam' Hall) (4:16)
11. Röyksopp - You Don't Have A Clue (4:33)
12. Bat For Lashes - Daniel (4:11)
13. Saint Etienne - Teenage Winter (5:53)
14. Smith - Baby It's You (3:23)
15. Tricky - Slow (3:22)

AQUI

1.6.09

Jardins Cinzentos



Por recomendação do meu media trader favorito, catei a primeira cópia que vi de Grey Gardens, drama da HBO estrelado Jessica Lange e Drew Barrymore. Mas como seu meio metido e muito curioso, decidi que antes veria o documentário de mesmo nome, de 1975, que deu origem ao filme. A história é a seguinte: mãe e filha [foto acima], de família tradicional dos Estados Unidos, depois de viver uma trajetória de luxo e opulência na década de 1940, perdem a fortuna e se recusam a adaptar-se à realidade. Vivem trancadas na mansão nos Hamptons, balneário luxuoso nas redondezas de Nova York, no meio da decadência, oito gatos e um guaxinim – e nenhuma higiene. A equipe de filmagem do documentário, composta apenas pelos irmãos Albert e David Maysles, chegava sempre uns minutos antes do combinado para passar spray antipulgas e colar fita adesiva na barra da calça, dada a sujeira do local.

As duas tinham o mesmo nome: Edith Ewing Bouvier Beale e eram parentes diretas de Jacqueline Bouvier Kennedy. Imagine uma relação opressiva de mãe e filha em que ambas compartilham o mesmo nome, a mesma história e, no frigir dos ovos, a mesma loucura. A filha, “Little Edie”, continuava com os mesmos sonhos de conseguir a “grande chance” no mundo do show business, mesmo aos 56 anos de idade e a mãe dependente. Enrola-se com os trapos de roupa que têm e, com a ajuda de alfinetes, transforma blusas velhas em minissaias e as usa como exemplo para dar aulas de etiqueta em frente às câmeras. Já “Big Edie”, na época com 85 anos, passava deitada olhando fotos antigas e ouvindo gravações que fizera nos áureos tempos em que cantava.

Assistir ao documentário é doloroso de várias formas. A primeira delas está no fato de que aquilo não é obra de um roteirista maluco, nem uma história inventada para chocar a sociedade umbiguista dos Estados Unidos. É a mais crua realidade, a mais deprimente vitrine dos medos e frustrações que, para nosso pavor, não ficaram guardados na mansão Grey Gardens. Esta não é uma única história de opressão familiar, não é sequer exclusiva dos americanos, é nossa também. E também são nossos os sonhos enjaulados e a dificuldade de diferenciar a realidade da ficção. Dói na mesma medida a constatação de que para algumas neuroses não há cura. Mesmo as pequenas, as minhas e suas, as picuinhas, as feridas da falta de amor, o ranço de viver para aquela câmera invisível que está aí para mostrar nossas rachaduras no teto, nossas goteiras negligenciadas e nossos bichos pulgentos, no mais aflito dos enquadramentos.

Quem gosta de cinema provavelmente já assistiu ao genial Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, e deve estar achando que essas senhoras levavam uma vida de Norma Desmond. A personagem de Gloria Swanson, depois de assassinar o escritor oportunista vivido por William Holden, ao ver as câmeras de TV aguardando por um depoimento seu em primeira mão, desce a escadaria de sua mansão maquiada e gloriosa, pensando estar num set de filmagens. Alright, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up, diz ela. E mesmo prisioneira da insanidade, termina o filme vitoriosa à sua maneira. A realidade, no entanto, não tem espaço para grandes vitórias.

Já Grey Gardens, o telefilme, reproduz de forma minuciosa o cenário real. Drew Barrymore fincou sua bandeira no território das atrizes versáteis e talentosas, e Jessica Lange – que andava num limbo sem bons papéis – deu a volta por cima vivendo Big Edie. E pensar que Renee Zellweger era a primeira escolha para o papel defendido por Barrymore ...

O filme conta a história que ocorreu antes do documentário e tenta explicar como aquelas mulheres chegaram no ponto de degradação em que foram redescobertas em 1975. Mas, acima de tudo, mastiga a trama para amenizar o azedume que o documentário nos deixa na boca do estômago.

Assista a Grey Gardens na HBO, dia 15/6 às 19h, com reprises dia 20 e 28.

27.5.09

Uma Carreira e Tanto


Ontem assisti a The Kid Stays In The Picture (2002), documentário de Nanette Burstein e Brett Morgen, sobre a vida do produtor de cinema Robert Evans e narrado pelo próprio. Para quem não o conhece, Evans foi o executivo da Paramount Pictures que moveu mundos e fundos (literalmente) para que obras como O Bebê de Rosemary (1968), Love Story (1970), O Poderoso Chefão (1972) ou Chinatown (1974) vissem a luz do dia. De ator derrotado dos anos 1950 a poderoso produtor vinte anos mais tarde, do casamento com Ali MacGraw - que o deixou por Steve McQueen, seu companheiro de elenco em Os Implacáveis (1972) – ao inevitável vício em cocaína, o filme, talvez pela narração do próprio "assunto", acaba sendo extremamente simpático. Não há muitas explicações sobre a arte de fazer cinema porque, acho que todos sabemos, o produtor não é artista, é administrador. No entanto, valem as fofocas, os boatos esclarecidos e alguns episódios inusitados na vida desse produtor prolífico.

*Na foto, Evans com Ali MacGraw numa festa pós-Oscar, em 1970.

26.5.09

Fogo!




O delegado de polícia explica seriamente à apresentadora do telejornal como começou o incêndio em uma faculdade, durante uma festa de arromba. Ele reconstitui a festa foto a foto, contando com mais de 40 mil fotos, coletadas de iPhones, Blackberries e câmeras digitais fornecidas pelas testemunhas. Eu não sei como a repórter fez para não rir.

15.5.09

Compilation



Uma compi para celebrar o aniversário do colega Rodrigo, que acima de todas as coisas não deixa de acreditar em ser feliz, em amar e naquelas coisas todas das quais muitos de nós um dia se cansam. Ele não. Segue firme acreditando, o que na minha cartilha já é um motivo muito nobre para admirá-lo.

Parabéns, amigo.

1. Sade - Paradise [Live] (4:32)
2. Paula Toller - Fly me to the moon (live)(4:47)
3. Kris Allen - She Works Hard for the Money (4:17)
4. George Michael - Waiting for That Day/You Can't Always Get What You Want (4:49)
5. Adriana Calcanhotto - Um Dia Desses (2:31)
6. Hollywood, Mon Amour - Arthur's Theme (Best That You Can Do) (Featuring Nadeah) (3:42)
7. Jem - Crazy (3:39)
8. Fernanda Takai - Esconda O Pranto Num Sorriso (3:27)
9. Gotan Project - Amor Porteño (live) (5:23)
10. Señor Coconut and his Orchestra - Kiss (3:53)
11. Seal - Stand By Me (4:06)
12. Morrissey - I Have Forgiven Jesus (3:43)
13. Maroon 5 - This Love (C. Tricky Stewart mix) (2:57)
14. Girls Aloud - The Promise (3:44)

Baixa aqui.

Gostamos muito


5.5.09

O Soldado Ronaldo

Chamem-me do que quiserem, mas domingo eu me emocionei na final do campeonato paulista de futebol. Não que tenha qualquer simpatia especial pelo Corinthians – emoções futebolísticas só tenho mesmo com o Colorado – mas Ronaldo Nazário disse uma coisa muito bonita quando os repórteres caíram em cima dele como abelhas no mel, ao final da partida. Perguntaram se ele espera ser escalado para a seleção. A resposta foi a seguinte: "Se eu for merecedor, serei muito grato, porque sou um soldado brasileiro a serviço da seleção".

E veja que isto não é frase pronta divulgada por assessoria de imprensa, nem declaração envernizada por jornalista ou revisor – foi dita por ele mesmo, ao vivo. Pouco me interessa se é uma frase decorada, pré-envernizada, ensaida. Gostei de ouvir alguém dizendo que é um soldado brasileiro. Claro que ele tem muito a ganhar jogando pela seleção, claro que os patrocinadores enxergaram cifrões naquela hora, claro que publicitários colocaram suas máquinas criativas em atividade pensando em como vender o Ronaldo ainda mais.

É ingênuo, é parcial, é até demagogo, dependendo das coisas nas quais você acredita. Mas eu me emocionei.

27.4.09

Anarquistas Graças a Deus


Der Baader Meinhof Komplex, o filme alemão que concorreu ao Oscar de melhor filme de língua estrangeira este ano, é uma dissertação chocante sobre o nascimento e subsequente impacto do grupo terrorista Facção Exército Vermelho. Liderado por Andreas Baader (Moritz Bleibtreu, de Corra, Lola, Corra) e influenciado pela jornalista de esquerda Ulrike Meinhof, o Bando Baader-Meinhof do título começou como um grupo de jovens rebeldes que, na tentativa de fazer diferença no mundo, lutava por uma ideologia que não existia, mas que tinha a plena convicção de que o fim de seus atos justificaria os meios.

Extremamente violenta, a película de Uli Edel tem uma estética de encher os olhos, pois representa os anos 1970 com muita naturalidade, resultado do trabalho primoroso da direção de arte, e abusa das cores para criar subtextos interessantes. As cenas de ação foram orquestradas de forma quase cirúrgica e com uma habilidade técnica de montagem impressionante, infinitamente superior ao que se costuma ver do cinema europeu. Com seus mais de 150 minutos de filme, Der Baader Meinhof Komplex é um curso expresso sobre as origens do terrorismo e dialoga - com uma linguagem um pouco diferente, é verdade - com Munique, de Spielberg, que tenta entender o funcionamento dos grupos terroristas, ainda que do seu jeito exageradamente simplista. O que desperta uma certa ira depois de assistir ao filme é a impunidade criminosa de um Estado que se nega a dialogar com as facções de esquerda e acaba pagando um preço histórico monstruoso. Reconhece esta história de algum lugar?

22.4.09

Beleza que mata



Segunda-feira fui ver La Belle Personne, o novo Christophe Honoré, que está em cartaz no Guion da Cidade baixa. Louis Garrel, o cabeludo incompreendido de sempre. As canções melancólicas, os jovens franceses e sua aparente indiferença, sua quase vida, quase perfeita. Até a chegada da bela Junie - uma mistura de Isabelle Adjani e Béatrice Dalle quando jovens - o agente provocador, enviado para testar as vigas emocionais de uma escola de segundo grau. Fala-se bem menos, claro, do que num filme americano, até porque A Bela Junie parece uma homenagem - um tanto doentia, é verdade - a Jules e Jim - uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Honoré tem uma séria implicância com o amor. Como eu também ando com a mesma sensação, gostei muito.

Pouco recomendado para os corações ensolarados. Se quer historinha para rir, procurar sua força interior e achar que o amor vence tudo, vá ver Divã.

5.4.09

Sunday Classics


Prostituição masculina, drogadição e aborto em Cinemascope, cortesia do amigo Tennessee Williams, cuja peça foi levada às telas em 1962 por Richard Brooks, com Paul Newman e Geraldine Page no elenco com o nome singelo de O Doce Pássaro da Juventude.

4.4.09

Sábado

3367188751_7d713a81fa[1].jpg


Hoje eu perdi o sono às 4 da manhã e voltei a ler as entrevistas de François Truffaut que eu ganhei do amigo Rodrigo. Quando perguntado sobre a idéia de Autor Total, cunhada por ele quando era crítico do Cahiers du Cinema no final da década de 1950, Truffaut reclama que as pessoas distorceram o que ele realmente queria dizer no artigo que escrevera. Disse que, naquela época em que estava sendo entrevistado (1984), já longe do julgamento apaixonado de jovem crítico, ele entendia que cinema não se faz sozinho, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Que as colaborações é que fazem de um filme uma obra que sobrevive ao tempo sem perder sua relevância.


E na vida é a mesma coisa. Apesar de nascermos sozinhos e, muito provavelmente, morrermos absolutamente sós, sem ninguém para segurar nossa mão trêmula no momento do último sopro de vida, nossa passagem pelo mundo é marcada pelas boas e más colaborações que desenvolvemos. Pelas parcerias amorosas, a família, os amigos e as contribuições de quem convive conosco. Desde as mais insuspeitas e passageiras até as que deixam bonitas marcas ou cicatrizes que preferimos nem ver.


Mas compreender esta verdade irrevogável de viver me amedronta um pouco. Porque eu aprendi desde muito cedo a existir sozinho, fui criança que pouco interagia com os outros, adolescente que praticamente não compreendia a si e, por consequência, muito menos ao resto do mundo, e adulto confuso no que diz respeito às relações sociais - um resultado até bastante previsível levando em conta a minha história.


O conceito de colaboração - que se for verdaderia precisa incluir o respeito e a compreensão de que as pessoas erram, têm opiniões contrárias às nossas, nem sempre estão disponíveis, etc. - é algo que eu estou começando a degustar aos pouquinhos e de forma consciente pela primeira vez na vida. Começou no trabalho, está se deslocando para as amizades e deve, assim espero, migrar para as parerias amorosas e fará delas relações mais sólidas e menos confusas.


É, meus amigos, existir dá um trabalho danado.

26.3.09

Vamos Participar?


Que tal se no próximo sábado, dia 28, às 20.30 a gente apagasse a luz por uma hora em sinal de respeito pelo planeta? São só 60 minutos sem consumir energia.Várias cidades do mundo já confirmaram sua participação. Porto Alegre é uma delas.

Aliás Porto Alegre está de aniversário hoje e estão dizendo que vão inaugurar a tal estátua encomendada para homenagear Elis Regina. Não vi, mas tenho medo. De qualquer forma, parabéns, Porto Alegre, que a gente ama e odeia e volta a amar todos os dias.