27.4.09

Anarquistas Graças a Deus


Der Baader Meinhof Komplex, o filme alemão que concorreu ao Oscar de melhor filme de língua estrangeira este ano, é uma dissertação chocante sobre o nascimento e subsequente impacto do grupo terrorista Facção Exército Vermelho. Liderado por Andreas Baader (Moritz Bleibtreu, de Corra, Lola, Corra) e influenciado pela jornalista de esquerda Ulrike Meinhof, o Bando Baader-Meinhof do título começou como um grupo de jovens rebeldes que, na tentativa de fazer diferença no mundo, lutava por uma ideologia que não existia, mas que tinha a plena convicção de que o fim de seus atos justificaria os meios.

Extremamente violenta, a película de Uli Edel tem uma estética de encher os olhos, pois representa os anos 1970 com muita naturalidade, resultado do trabalho primoroso da direção de arte, e abusa das cores para criar subtextos interessantes. As cenas de ação foram orquestradas de forma quase cirúrgica e com uma habilidade técnica de montagem impressionante, infinitamente superior ao que se costuma ver do cinema europeu. Com seus mais de 150 minutos de filme, Der Baader Meinhof Komplex é um curso expresso sobre as origens do terrorismo e dialoga - com uma linguagem um pouco diferente, é verdade - com Munique, de Spielberg, que tenta entender o funcionamento dos grupos terroristas, ainda que do seu jeito exageradamente simplista. O que desperta uma certa ira depois de assistir ao filme é a impunidade criminosa de um Estado que se nega a dialogar com as facções de esquerda e acaba pagando um preço histórico monstruoso. Reconhece esta história de algum lugar?

22.4.09

Beleza que mata



Segunda-feira fui ver La Belle Personne, o novo Christophe Honoré, que está em cartaz no Guion da Cidade baixa. Louis Garrel, o cabeludo incompreendido de sempre. As canções melancólicas, os jovens franceses e sua aparente indiferença, sua quase vida, quase perfeita. Até a chegada da bela Junie - uma mistura de Isabelle Adjani e Béatrice Dalle quando jovens - o agente provocador, enviado para testar as vigas emocionais de uma escola de segundo grau. Fala-se bem menos, claro, do que num filme americano, até porque A Bela Junie parece uma homenagem - um tanto doentia, é verdade - a Jules e Jim - uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Honoré tem uma séria implicância com o amor. Como eu também ando com a mesma sensação, gostei muito.

Pouco recomendado para os corações ensolarados. Se quer historinha para rir, procurar sua força interior e achar que o amor vence tudo, vá ver Divã.

5.4.09

Sunday Classics


Prostituição masculina, drogadição e aborto em Cinemascope, cortesia do amigo Tennessee Williams, cuja peça foi levada às telas em 1962 por Richard Brooks, com Paul Newman e Geraldine Page no elenco com o nome singelo de O Doce Pássaro da Juventude.

4.4.09

Sábado

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Hoje eu perdi o sono às 4 da manhã e voltei a ler as entrevistas de François Truffaut que eu ganhei do amigo Rodrigo. Quando perguntado sobre a idéia de Autor Total, cunhada por ele quando era crítico do Cahiers du Cinema no final da década de 1950, Truffaut reclama que as pessoas distorceram o que ele realmente queria dizer no artigo que escrevera. Disse que, naquela época em que estava sendo entrevistado (1984), já longe do julgamento apaixonado de jovem crítico, ele entendia que cinema não se faz sozinho, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Que as colaborações é que fazem de um filme uma obra que sobrevive ao tempo sem perder sua relevância.


E na vida é a mesma coisa. Apesar de nascermos sozinhos e, muito provavelmente, morrermos absolutamente sós, sem ninguém para segurar nossa mão trêmula no momento do último sopro de vida, nossa passagem pelo mundo é marcada pelas boas e más colaborações que desenvolvemos. Pelas parcerias amorosas, a família, os amigos e as contribuições de quem convive conosco. Desde as mais insuspeitas e passageiras até as que deixam bonitas marcas ou cicatrizes que preferimos nem ver.


Mas compreender esta verdade irrevogável de viver me amedronta um pouco. Porque eu aprendi desde muito cedo a existir sozinho, fui criança que pouco interagia com os outros, adolescente que praticamente não compreendia a si e, por consequência, muito menos ao resto do mundo, e adulto confuso no que diz respeito às relações sociais - um resultado até bastante previsível levando em conta a minha história.


O conceito de colaboração - que se for verdaderia precisa incluir o respeito e a compreensão de que as pessoas erram, têm opiniões contrárias às nossas, nem sempre estão disponíveis, etc. - é algo que eu estou começando a degustar aos pouquinhos e de forma consciente pela primeira vez na vida. Começou no trabalho, está se deslocando para as amizades e deve, assim espero, migrar para as parerias amorosas e fará delas relações mais sólidas e menos confusas.


É, meus amigos, existir dá um trabalho danado.