4.4.09

Sábado

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Hoje eu perdi o sono às 4 da manhã e voltei a ler as entrevistas de François Truffaut que eu ganhei do amigo Rodrigo. Quando perguntado sobre a idéia de Autor Total, cunhada por ele quando era crítico do Cahiers du Cinema no final da década de 1950, Truffaut reclama que as pessoas distorceram o que ele realmente queria dizer no artigo que escrevera. Disse que, naquela época em que estava sendo entrevistado (1984), já longe do julgamento apaixonado de jovem crítico, ele entendia que cinema não se faz sozinho, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Que as colaborações é que fazem de um filme uma obra que sobrevive ao tempo sem perder sua relevância.


E na vida é a mesma coisa. Apesar de nascermos sozinhos e, muito provavelmente, morrermos absolutamente sós, sem ninguém para segurar nossa mão trêmula no momento do último sopro de vida, nossa passagem pelo mundo é marcada pelas boas e más colaborações que desenvolvemos. Pelas parcerias amorosas, a família, os amigos e as contribuições de quem convive conosco. Desde as mais insuspeitas e passageiras até as que deixam bonitas marcas ou cicatrizes que preferimos nem ver.


Mas compreender esta verdade irrevogável de viver me amedronta um pouco. Porque eu aprendi desde muito cedo a existir sozinho, fui criança que pouco interagia com os outros, adolescente que praticamente não compreendia a si e, por consequência, muito menos ao resto do mundo, e adulto confuso no que diz respeito às relações sociais - um resultado até bastante previsível levando em conta a minha história.


O conceito de colaboração - que se for verdaderia precisa incluir o respeito e a compreensão de que as pessoas erram, têm opiniões contrárias às nossas, nem sempre estão disponíveis, etc. - é algo que eu estou começando a degustar aos pouquinhos e de forma consciente pela primeira vez na vida. Começou no trabalho, está se deslocando para as amizades e deve, assim espero, migrar para as parerias amorosas e fará delas relações mais sólidas e menos confusas.


É, meus amigos, existir dá um trabalho danado.

6 comentários:

  1. E eu não faço ideia de que ponto estou nesse processo. Que belo texto.

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  2. Estamos sempre sendo bombardeados com idéias individualista que acabamos esquecendo mesmo que nem tudo se faz sozinho. Viver sozinho deve ser coisa triste. Necessitamos de interação, por mais que tenhamos momentos de "ficar sozinho", dependemos do outro. Realmente, é preciso aprender a aceitar o outro, em vez de estar sempre tentando adequar o outro.

    "É, meus amigos, existir dá um trabalho danado."
    Ô, se dá!

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  3. Faz um tempo (não muito), meu caro, eu tive um insight: se há um sentido ele está no nó, na superação dessas coisas que estivestes falando. É com certeza o maior de todos os trabalhos, mas talvez o único que importe. Boa sorte!

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  4. Tu és uma das minhas grandes colaborações recebidas. :) Beijo.

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  5. Considero-me razoavelmente hábil na relações sociais desde criança e com o tempo acredito que minha habilidade está melhorando ainda mais. Mesmo assim concordo plenamente com a sua afirmação: "existir dá um trabalho danado".

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