16.6.09

Bom e ruim

E sabe que Divã, baseado no romance de Martha Medeiros, não é tão ruim quanto parece? Eu achei que seria mais uma daquelas comédias brasileiras de divulgação ampla, orçamento generoso e elenco global, mas que não têm um pingo de originalidade. Divã é algumas dessas coisas, mas tem um roteiro que não é exatamente melhor do que a média das comédias românticas, mas é certamente diferente – e poucas coisas são melhores do que ouvir diálogos diferentes quando o que se espera é mais do mesmo.

Divã não foi feito com muito dinheiro. Há uma cena em que a protagonista encontra o ex-marido no supermercado e tudo que se vê nas prateleiras são garrafas e recipientes com líquidos coloridos e empilhados, como se fossem alegorias de palco numa peça de teatro. A única coisa identificável no supermercado é o xampu do patrocinador, rótulos bem claros e grande quantidade de produtos enquadrados pela câmera. É triste que o product placement do cinema brasileiro seja ainda tão patético e didático. Não espantaria a ninguém se a cena em questão fosse parte de uma novela da faixa das 19h, mas cinema exige um pouco mais de dignidade. A direção de arte parecia estar trabalhando em sistema de guerrilha, aproveitando sempre o mínimo e o esteticamente correto para dar verossimilhança aos sets. Talvez por isso tenha passado longe no quesito personalidade.

A história é a seguinte: Lília Cabral é Mercedes, casada com Gustavo (José Meyer), tem dois filhos ótimos e um casal de amigos. Resolve um belo dia fazer terapia e, ao mesmo tempo em que conta suas histórias ao analista, entram os flashbacks (ou flashforwards) para mostrar ao espectador como tudo aconteceu. O analista nunca aparece claramente, ele é sempre a figura quase invisível da autoridade psíquica e mesmo sem enxergá-lo, sabemos que ele está lá – como todo bom terapeuta tem de ser. É possível, inclusive, imaginar as perguntas que ele faz a ela sem que nem precisemos ouvir sua voz. A interação da personagem com o terapeuta é certamente um dos pontos altos desta adaptação.

Mercedes acaba tendo um caso extraconjugal - com um antropólogo de supostos 40 anos, interpretado por Reynaldo Gianecchini, com quem tem uma das cenas mais engraçadas do filme – e acaba optando por se separar do marido. Depois disso, começa a sair com um ainda mais jovem, 19 anos (Cauã Raymond), até ficar sozinha de verdade pela primeira vez e experimentar intensamente a sensação de não saber direito quem é depois de tanto tempo vivendo para o parceiro. Entre um desencontro amoroso e outro, cenas muito engraçadas e outras bastante medíocres. Muito embora seja bom ver o cinema brasileiro abraçando gêneros e experimentando fórmulas para um dia acertar, ainda está difícil não nivelar por baixo. Um amigo sempre diz “olha, até que para ser filme brasileiro, este não é ruim”. Eu não tiro a razão dele, mas também não concordo 100%.

É fato que o cinema brasileiro ainda não tem profissionais afinadíssimos como acontece nos Estados Unidos ou na Europa – até porque não temos tradição, escolas, veteranos capacitados a ensinar etc. – nossos orçamentos são estrangulados e toda a forma de distribuição aqui é feita pelo cartel comandado por uma distribuidora toda-poderosa. Os independentes precisam chamar muita atenção em festivais para serem razoavelmente distribuídos, o que, em geral, é exceção. Então quem faz cinema não pode depender da renda que ele oferece, ou seja, o cinema acaba sendo um hobby, enquanto que as carreiras na publicidade ou na televisão servem de fonte principal de renda.

É o caso do diretor José Alvarenga Júnior, que no cinema mesmo só fez filmes da Xuxa, dos Trapalhões e Os Normais – O Filme. Na TV dirigiu Sai de Baixo, Os Normais e A Diarista (entre outros). Acabou que ele trouxe para Divã, a comédia física e pastelão dos programas humorísticos televisivos e isso me causou um desconforto muito grande. Não são raros nesta adaptação do livro de Martha Medeiros, os momentos em que a gente tem aquela sensação de já ter visto uma cena em algum humorístico de sexta-feira à noite ou em alguma comédia romântica produzida em Hollywood, e de já ter visto melhor. Mas há quem vá se divertir muito com isso. Porque, apesar do formato bastante falho, Lília Cabral é ótima humorista e o texto tem momentos de honestidade interessantes, o que é sempre uma boa surpresa.

2 comentários:

  1. Eu vi com a minha mãe, daí gostei mais pelos comentários que ela fazia do filme do que do filme em si.
    Acho a Lilia Cabral ótima, mas por várias vezes senti falta de "alguma coisa".

    Beijo! Adoro as resenhas! :)

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  2. Mariana Borges5:26 PM

    Bom ler você de novo, estava sentindo falta de seus textos.

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