1.6.09

Jardins Cinzentos



Por recomendação do meu media trader favorito, catei a primeira cópia que vi de Grey Gardens, drama da HBO estrelado Jessica Lange e Drew Barrymore. Mas como seu meio metido e muito curioso, decidi que antes veria o documentário de mesmo nome, de 1975, que deu origem ao filme. A história é a seguinte: mãe e filha [foto acima], de família tradicional dos Estados Unidos, depois de viver uma trajetória de luxo e opulência na década de 1940, perdem a fortuna e se recusam a adaptar-se à realidade. Vivem trancadas na mansão nos Hamptons, balneário luxuoso nas redondezas de Nova York, no meio da decadência, oito gatos e um guaxinim – e nenhuma higiene. A equipe de filmagem do documentário, composta apenas pelos irmãos Albert e David Maysles, chegava sempre uns minutos antes do combinado para passar spray antipulgas e colar fita adesiva na barra da calça, dada a sujeira do local.

As duas tinham o mesmo nome: Edith Ewing Bouvier Beale e eram parentes diretas de Jacqueline Bouvier Kennedy. Imagine uma relação opressiva de mãe e filha em que ambas compartilham o mesmo nome, a mesma história e, no frigir dos ovos, a mesma loucura. A filha, “Little Edie”, continuava com os mesmos sonhos de conseguir a “grande chance” no mundo do show business, mesmo aos 56 anos de idade e a mãe dependente. Enrola-se com os trapos de roupa que têm e, com a ajuda de alfinetes, transforma blusas velhas em minissaias e as usa como exemplo para dar aulas de etiqueta em frente às câmeras. Já “Big Edie”, na época com 85 anos, passava deitada olhando fotos antigas e ouvindo gravações que fizera nos áureos tempos em que cantava.

Assistir ao documentário é doloroso de várias formas. A primeira delas está no fato de que aquilo não é obra de um roteirista maluco, nem uma história inventada para chocar a sociedade umbiguista dos Estados Unidos. É a mais crua realidade, a mais deprimente vitrine dos medos e frustrações que, para nosso pavor, não ficaram guardados na mansão Grey Gardens. Esta não é uma única história de opressão familiar, não é sequer exclusiva dos americanos, é nossa também. E também são nossos os sonhos enjaulados e a dificuldade de diferenciar a realidade da ficção. Dói na mesma medida a constatação de que para algumas neuroses não há cura. Mesmo as pequenas, as minhas e suas, as picuinhas, as feridas da falta de amor, o ranço de viver para aquela câmera invisível que está aí para mostrar nossas rachaduras no teto, nossas goteiras negligenciadas e nossos bichos pulgentos, no mais aflito dos enquadramentos.

Quem gosta de cinema provavelmente já assistiu ao genial Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, e deve estar achando que essas senhoras levavam uma vida de Norma Desmond. A personagem de Gloria Swanson, depois de assassinar o escritor oportunista vivido por William Holden, ao ver as câmeras de TV aguardando por um depoimento seu em primeira mão, desce a escadaria de sua mansão maquiada e gloriosa, pensando estar num set de filmagens. Alright, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up, diz ela. E mesmo prisioneira da insanidade, termina o filme vitoriosa à sua maneira. A realidade, no entanto, não tem espaço para grandes vitórias.

Já Grey Gardens, o telefilme, reproduz de forma minuciosa o cenário real. Drew Barrymore fincou sua bandeira no território das atrizes versáteis e talentosas, e Jessica Lange – que andava num limbo sem bons papéis – deu a volta por cima vivendo Big Edie. E pensar que Renee Zellweger era a primeira escolha para o papel defendido por Barrymore ...

O filme conta a história que ocorreu antes do documentário e tenta explicar como aquelas mulheres chegaram no ponto de degradação em que foram redescobertas em 1975. Mas, acima de tudo, mastiga a trama para amenizar o azedume que o documentário nos deixa na boca do estômago.

Assista a Grey Gardens na HBO, dia 15/6 às 19h, com reprises dia 20 e 28.

4 comentários:

  1. Grande texto, grande Alex!
    e recomendação anotada!
    ;)

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  2. Vou ver se acho o documentário.
    Incrível é que lendo isso lembrei tanto da minha cidade. Isso faz tanto sentido em Pelotas.

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  3. Eu não tenho HBO!! Não acredito. :(
    Mas como as reprises são sábado e domingo dá pra assistir na casa do namorado...

    Uma vez assisti um filme (acho que era uma família árabe) em que o pai mantinha presa a família inteira dentro de casa, sem luz e comendo super mal... era um horror. Porque as crianças, mesmo depois de terem acesso à rua, não queriam sair... ficaram sem saber o que fazer ali fora. Não sabiam falar e eram doentes. Muito triste. :(
    Agora imagino quando a situação é a própria pessoa se manter presa... :/

    Beijo.

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  4. Anônimo8:37 PM

    Eu assisti o filme exatamente 18 horas antes da minha prova para certificacao profissional americana (maio dia 7 a uma da tarde num hotel fuleiro em Lexington, KY). Nao sei se me fez bem ou nao assistindo o filme logo antes da famigerada prova. Mas fiquei curiosa em ver o documentario. Peguei o filme ja com 15 minutos rodado. Acho que preciso assisti-lo de novo. Sem duvidas o filme mexe com a gente. Excelente dica.

    Patricia.

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