29.10.09

Cinema à Mostra



Todos os anos, a assessoria de imprensa da Mostra de Cinema de São Paulo tem a tarefa inglória de resumir o enredo de cada um dos filmes da programação em apenas duas linhas. Aí você acaba com sinopses como "travesti precisa lidar com o namorado viciado em drogas e o filho psicótico enquanto enfrenta problemas de saúde". Acaba que todos os enredos soam esquisitos e, muitas vezes, assustadores.

Nesses dois dias em São Paulo, consegui assistir a sete filmes. Por enquanto os documentários se destacam:

O Menino Certo (Unmistaken Child) acompanha a busca de um monge tibetano pela próxima encarnação do Lama Konchog. O menino "escolhido" tem menos de um ano de idade e é quem cativa de imediato a plateia do filme. Comovente, com um senso de humor singelo e a câmera atenta do diretor israelense Nati Baratz, a película não nos deixa perder nenhum detalhe sutil nessa história de superstições e crenças que demoram a fazer sentido para qualquer ocidental.

American Swing narra a ascensão e queda do primeiro clube de swing dos Estados Unidos, o Plato's Retreat. O diretor Matthew Kaufman estava presente e contou como conseguiu as imagens em VHS e película que usou no filme. O problema com qualquer documentário americano sobre alguma maravilha dos anos 1970 é que, quando o filme chega à década seguinte, com a descoberta da AIDS e as dificuldades econômicas dos EUA, praticamente vira um melodrama. Sorte que neste caso os depoimentos seguram muito bem o humor do filme.

Dentre os filmes de ficção, algumas surpresas e decepções:

Patrik, Idade 1,5, filme sueco de Ella Lemhagen, conta a história de um casal gay que se muda para o subúrbio e decide adotar um bebê. A instituição responsável pela adoção, no entanto, envia para o casal um adolescente de 15 anos problemático e com um passado de violência. É curioso ver que até a hipocrisia é diferente na Suécia. Um filme honesto, engraçado e comovente.

Morrer como um Homem, do português João Pedro Rodrigues, o mesmo diretor de O Fantasma, é o filme do resumo que eu citei no primeiro parágrafo. O diretor utilizou travestis reais para interpretar os papéis. O ator principal - cujo personagem que diz se chamar Tônia em homenagem a Tônia Carreiro - simplesmente não tem profundidade para segurar o filme, mas a divertida Maria Bakker rouba a cena. No entanto, as tomadas são demasiadamente longas e o roteiro, cheio de buracos.

An Education (foto), filme inglês da diretora dinamarquesa Lone Scherfig e com roteiro ágil de Nick Hornby (Alta Fidelidade e Um Grande Garoto) foi o mais interessante de todos até agora. Conta a história da menina inglesa de subúrbio com aspirações um tanto modernas para a época que se envolve com um charlatão de vida boa. Baseado na biografia da jornalista Lynn Barber, que hoje escreve para o Sunday Times, o filme revela o talento da jovem Carey Mulligan e tem o ótimo Alfred Molina no papel do pai repressor, além de uma participação impagável de Emma Thompson como a diretora da escola. Imperdível.

Agora, se puder, fuja de O Brilho de uma Paixão, da sempre chata Jane Campion, sobre o romance do poeta John Keats e uma garota da sociedade e Tokyo, filme em três partes, dirigidas por realizadores ditos "modernos", sobre a capital japonesa. Enfadonhos, despropositados e pretensiosos, são uma verdadeira punição a quem vai ao cinema.

25.10.09

Mergulho



O amor é um mergulho. Na escuridão, na incerteza. Pode-se dar de cabeça num recife ou de cara na porta. E muitos de nós estão prontos para mergulhar, escalando o rochedo com valentia até o pico mais alto para saltar, onde o vento sobra espalhando cheiro de perigo e mar. Outros ficam bem longe da costa e preferem o cimento da solidão. O amor requer bravura. A solidão mais ainda, porque às vezes ela é a escolha mais acertada. Dolorida, suada, triste, heroica, ardida. Olhos vermelhos, noites insones, o casal feliz na rua, aquela foto ressuscitada, o reencontro inesperado. Um texto sem final, um adeus que não acontece, um telefonema ou uma canção no rádio. E, contra todas as percepções comuns, nada disso é sintoma de falta de amor. A solidão não é o oposto do amor. Pelo contrário, é quando ele cansa de esperar que você mergulhe e te inunda por dentro da forma mais misteriosa. Quando você precisa acertar as contas com as palavras que não disse, com o adeus que não conseguiu dar e as portas que não teve coragem de fechar ou as janelas que não se achou pronto para abrir. Independente de você, o amor continua sendo e acontecendo ao seu redor. É preciso perder o medo. E mergulhar de uma altura possível.

16.10.09

Compilation



Eu estava assistindo ao programa do Jools Holland na semana passada e um dos muitos convidados era Gladys Knight, de quem o apresentador se disse um grande fã e pediu que cantasse uma de suas canções favoritas, If I Were Your Woman. Foi eletrizante. Eu já conhecia as versões de Alicia Keys e George Michael, ótimas, mas a original é imbatível. A de George Michel, registrada ao vivo no concerto para Nelson Mandela em 1988, foi extraída do vinil (sim, você leu bem) do single de Praying for Time, então há alguns clics e clacs. Ouçam as três e depois comentem.



Quem não cansa de me surpreender também pelo talento é KD Lang. No seu mais recente DVD, Live with the BBC Concert Orchestra, a canadense canta um repertório impecável que tem Western Skies, presente no seu primeiro CD solo, Shadowland, e de autoria de Chris Isaak. O tempero especial fica por conta do músico brasileiro Grecco Buratto que a acompanha e canta uns versos em português. Extraí o áudio do DVD para incluir na compilação. Há algumas canções às quais eu não consigo resistir, não importa quem esteja cantando. Aqui há alguns exemplos: Dream a Little Dream e Cry me a River. E, convenhamos, Diana Krall e Michael Bublé interpretando deixam tudo mais bonito.


Uma das coisas mais inesquecíveis para mim no final de Sex and the City foi a canção que encerra o episódio, You’ve Got the Love, na voz de Candi Staton – e que me lembrou um tanto os bons tempos do Massive Attack. Eis que a banda hype do momento, Florence + The Machine, gravou uma versão bem moderna da música que vale a inclusão. Ainda tem Adriana Calcanhotto em dose dupla: com Gatinha Manhosa, do seu Adriana Partimpim Dois e como compositora de Tua, lindamente interpretada por Maria Bethânia, presente no seu CD de mesmo nome recentemente lançado – Bethânia que aliás lançou novamente dois álbuns ao mesmo tempo: Tua e Encanteria, um melhor que o outro. Do novo de Bebel Gilberto tem Sun is Shining, com um arranjo espertíssimo. Ainda tem Lily Allen, The Supremes (sem Diana Ross, mas com a voz de veludo de Jean Terrell), Sharleen Spiteri, com sua assombrosa I'm Gonna Haunt You, os gaúchos do Delicatessen com I Love The Way You're Breaking My Heart e os Pet Shop Boys com a música tema da nova temporada da série britânica Beautiful People. A foto da capa é de Jean-Baptiste Mondino.

1. Gladys Knight + the Pips - If I Were Your Woman (3:17)
2. Diana Krall + Hank Jones - Dream A Little Dream Of Me (4:35)
3. kd lang - Western Skies (Live) (3:33)
4. Maria Bethânia - Tua (2:51)
5. George Michael - If You Were My Woman (Live) (4:02)
6. The Supremes - Stoned Love (3:19)
7. Lily Allen - Never Gonna Happen (Doc Fritz What's Happening mix) (4:07)
8. Sharleen Spiteri - I'm Going To Haunt You (2:34)
9. Florence + The Machine - You've Got the Love (2:48)
10. Alicia Keys - If I Was Your Woman/Walk on By (3:06)
11. Pet Shop Boys - Beautiful People (3:41)
12. Bebel Gilberto - Sun Is Shining (3:56)
13. Michael Bublé - Cry Me A River (4:14)
14. Delicatessen - I Love the Way You're Breaking my Heart (2:08)
15. Adriana Calcanhotto - Gatinha Manhosa (2:21)

Aqui.

6.10.09

Filme Catástrofe



Ontem eu saí do trabalho e entrei num loop de sucessões infelizes. O fato é que caiu um temporal daqueles de cinema em Porto Alegre. Mas não pense você que foi uma chuvinha daquelas como na cena final de Breakfast at Tiffany’s, com a Audrey Hepburn de gabardine abraçada no gatinho que adentrou um beco escuro e as gotas caem do céu para lhe acariciar o rosto ossudo e anguloso. Ou aquela em 300 que sedimentou a vitória dos espartanos liderados por Gerard Butler. Foi um temporal digno de filme catástrofe, em película de 70mm, com jeitão de Inferno na Torre, aquele com elenco estelar semi-aposentado, em que tudo parece despencar, inclusive o mundo.

Havia árvores no meio da rua, senhoras lutando contra o vendo com a sombrinha aberta pelo avesso – sem a poesia de Akira Kurosawa em Rapsódia em Agosto, que fique bem claro –, hordas de operadoras de telemarketing em tocaia dentro de uma farmácia e o louco da Rua André da Rocha cantando “Porto Alegre é demais...” Cheguei a imaginar a onda gigante de O Dia Depois de Amanhã quebrando a torre da Usina do Gasômetro em duas por cima da estátua de bronze de Elis Regina cantando o Arrastão. Ou dona Eva Sopher, no maior estilo Shelley Winters em O Destino de Poseidon, pendurada no lustre gigantesco do Teatro São Pedro.

Depois de esperar 20 minutos no ponto de taxi, dizer algumas barbaridades para os espertalhões que se jogavam no meio da rua tentando roubar a vez de quem estava na fila, finalmente consegui entrar no carro, que, segundo contou o condutor, costuma mesmo ficar na porta do Gruta Azul, famoso puteiro da cidade e só parou ali porque voltava de uma corrida. “Pior, meu amigo, é que com essa chuva não vai ninguém na Xoxoteca. Estou vendo que hoje eu fico sem serviço a noite toda.” É, eu sei. Também fiquei curioso e resolvi pesquisar no site da casa. Xoxoteca é “uma festa quente, muito sensual e cheia de surpresas (...) a melhor festa da semana”. Medo.

Mais 35 minutos para fazer um percurso de 5km, chego no meu prédio. Sem luz. Sete lances de escada, um cachorro furioso solto no sexto andar, o mesmo que rosna pra mim no elevador. Pelo menos para ele era um dia de sorte, pode finalmente me colocar a correr da forma mais humilhante imaginável. Chego em casa, tranco a porta, respiro fundo e percebo que o vendaval fez com que a porta da sacada se abrisse, alagando o quarto. Seco o chão, tomo banho, como alguma coisa, deito e penso: agora acabou. Toca o telefone, é do trabalho: “O fulano do jornal aquele quer que você traduza uma crônica com urgência, para hoje ainda, pode ser?”

Pode, eu não estava fazendo nada mesmo.

5.10.09

Estava demorando...


Madonna, que não participava do Saturday Night Live desde a década passada, fez uma participação no último episódio do programa ao lado de Lady Gaga – que aliás tem um corpão, mas a cara é um desastre. Ainda estou entre gostar e achar triste e patético o que Gaga faz.