6.10.09

Filme Catástrofe



Ontem eu saí do trabalho e entrei num loop de sucessões infelizes. O fato é que caiu um temporal daqueles de cinema em Porto Alegre. Mas não pense você que foi uma chuvinha daquelas como na cena final de Breakfast at Tiffany’s, com a Audrey Hepburn de gabardine abraçada no gatinho que adentrou um beco escuro e as gotas caem do céu para lhe acariciar o rosto ossudo e anguloso. Ou aquela em 300 que sedimentou a vitória dos espartanos liderados por Gerard Butler. Foi um temporal digno de filme catástrofe, em película de 70mm, com jeitão de Inferno na Torre, aquele com elenco estelar semi-aposentado, em que tudo parece despencar, inclusive o mundo.

Havia árvores no meio da rua, senhoras lutando contra o vendo com a sombrinha aberta pelo avesso – sem a poesia de Akira Kurosawa em Rapsódia em Agosto, que fique bem claro –, hordas de operadoras de telemarketing em tocaia dentro de uma farmácia e o louco da Rua André da Rocha cantando “Porto Alegre é demais...” Cheguei a imaginar a onda gigante de O Dia Depois de Amanhã quebrando a torre da Usina do Gasômetro em duas por cima da estátua de bronze de Elis Regina cantando o Arrastão. Ou dona Eva Sopher, no maior estilo Shelley Winters em O Destino de Poseidon, pendurada no lustre gigantesco do Teatro São Pedro.

Depois de esperar 20 minutos no ponto de taxi, dizer algumas barbaridades para os espertalhões que se jogavam no meio da rua tentando roubar a vez de quem estava na fila, finalmente consegui entrar no carro, que, segundo contou o condutor, costuma mesmo ficar na porta do Gruta Azul, famoso puteiro da cidade e só parou ali porque voltava de uma corrida. “Pior, meu amigo, é que com essa chuva não vai ninguém na Xoxoteca. Estou vendo que hoje eu fico sem serviço a noite toda.” É, eu sei. Também fiquei curioso e resolvi pesquisar no site da casa. Xoxoteca é “uma festa quente, muito sensual e cheia de surpresas (...) a melhor festa da semana”. Medo.

Mais 35 minutos para fazer um percurso de 5km, chego no meu prédio. Sem luz. Sete lances de escada, um cachorro furioso solto no sexto andar, o mesmo que rosna pra mim no elevador. Pelo menos para ele era um dia de sorte, pode finalmente me colocar a correr da forma mais humilhante imaginável. Chego em casa, tranco a porta, respiro fundo e percebo que o vendaval fez com que a porta da sacada se abrisse, alagando o quarto. Seco o chão, tomo banho, como alguma coisa, deito e penso: agora acabou. Toca o telefone, é do trabalho: “O fulano do jornal aquele quer que você traduza uma crônica com urgência, para hoje ainda, pode ser?”

Pode, eu não estava fazendo nada mesmo.

6 comentários:

  1. hahahaha
    muito bom... a narrativa.
    =P

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  2. rs rs rs...é um Jorge Amado gaúcho esse menino. Excelente narrativa.

    abraço

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  3. E não deu P.T. ?!

    http://www.youtube.com/watch?v=6sWJuQD0cL8

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  4. Hahahahahaha. Imaginar a D. Eva pendurada no lustre me fez gargalhar.

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  5. Hehehehe

    Foi horrível mesmo! Eu estava na aula, o professor de metafísica falava da origem e natureza de Deus...

    Morri de rir do louco da André da Rocha. Saudade dele. Eu morava nessa rua e ele sempre cantava Porto Alegre é demais e comentava que tinha acabado o chimarrão, quando eu ia na padaria . Uma figura!

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  6. Putz, que dia hein!!!!


    adooooro Breakfast at Tiffany’s.

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