
"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
Beth Goulart escolheu muito adequadamente o texto Prece para terminar seu monólogo em que faz Clarice Lispector no teatro. Apesar de certos maneirismos exagerados e uns tropeços na hora de reproduzir a língua presa da autora falecida em 1977, parece que a atriz encontrou um equilíbrio interessante na sua montagem intitulada "Simplesmente Eu. Clarice Lispector". O cenário e o figurino são elegantes e primam pela sofisticação da simplicidade, tal como a linguagem dessa que é uma das mais intrigantes e - curiosamente - mais acessíveis escritoras da língua portuguesa. Saí do teatro pensando se não é exatamente isso que nos falta: autores que usem uma linguagem simples para dizer coisas complexas e que de certa forma nos revelem de maneira contundente – ao contrário dos pseudointelectuais que empilham clichês acadêmicos para dizer quase nada.
A peça esteve em Porto Alegre no final de semana e segue para o interior do Rio Grande do Sul, numa turnê promovida pelo SESC, com ingressos a preços populares. Mais informações aqui.
2 comentários:
Que bacana, gostaria de assistir. Ela está bastante parecida com Clarice.
Bacana lembrar de Clarice no teu blog. Sempre é muito legal a gente reverenciar o que de fato é bom para a cultura. Abraço grande e espero sua visita ao meu blog (www.lua2gatos.blogspot.com).
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