
Quando assisti a
Dúvida (Doubt, 2008) pela primeira vez, achei que, com o tempo, ele iria virar piada. Mais ou menos como a atuação exagerada de Jack Nicholson em Questão de Honra (A Few Good Men, 1992) -
You can't handle the truth!. Afinal de contas, qualquer um percebe que a trama do dramaturgo John Patrick Shanley não sobreviveu bem à adaptação para o cinema, justamente porque não conseguiu deixar de ser uma peça de teatro. Feito sob medida para exibir o grande talento dos quatro atores que dividem a tela, Dúvida tem uma premissa bastante envolvente mas, como sugere o título, opta por não esclarecer as coisas muito bem.
Meryl Streep é uma madre superiora que, alertada pela inexperiente Irmã James (Amy Adams), resolve investigar se o Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) estaria de fato abusando sexualmente de um coroinha. Uma das indicadas ao Oscar com menor tempo de tela, Viola Davis faz a mãe do menino e, em seus meros 10 minutos de atuação, lembra o espectador que é a única personagem realmente valente nesta história, a única que está pronta a fazer sacrifícios e a única também que parece ter coisas muito mais importantes a fazer.
Foi na segunda exibição que pude perceber um outro ângulo do qual pode-se ver Dúvida: imaginando que a acusação de abuso sexual é apenas um MacGuffin, uma distração que parece mover toda a trama quando, na realidade, o mais importante está no que os personagens revelam enquanto buscam a resposta definitiva, a redenção ou punição - que pode ou não chegar.
É muito oportuno inclusive que estes religiosos arrogantes e ensimesmados que protagonizam o filme estejam na pele de Streep e Seymour Hoffman, dois atores com egos monstruosos. O embate quando estão em cena é dos personagens, mas é acima de tudo uma queda-de-braço entre dois atores, um querendo provar ao outro quem tem mais densidade dramática para sustentar a cena. Ganhamos nós espectadores, porque justamente nestes momentos é que se revelam os tiques nervosos, inclinações de voz inéditas e a fisicalidade cênica absurda que eles exercitam para fazer do seu personagem o mais memorável - exatamente onde mora o perigo eminente do exagero. O fogo que incendeia os embates psicológicos entre eles logo se apaga e o filme despenca para uma insípida cena final que até surpreende o espectador, mas por razões duvidosas.