25.4.10

19.4.10

Uma madrugada

Ando acabrunhado, talvez de solidão. Não sei se é bem isso. Na realidade, se tenho uma grande dificuldade de saber quem verdadeiramente sou na maioria das vezes, imagine se saberia que tipo de mal me acomete ou que nome dar a ele. Respeito a minha condição de não saber as coisas porque é precisamente ela que me permite todos os dias fazer o questionamento principal: de onde vem, para onde vai e onde me leva o que sinto? Dar um nome a essa coisa, portanto, é o que menos importa. Meu terapeuta, inclusive, declarou que de todos os pacientes dele, o que melhor convive com estar só sou eu. Mas o fato é que estou mesmo acabrunhado, com um espaço vazio que parece percorrer a extensão do esôfago e que me impede de sentir mais intensamente as coisas e dificulta relaxar e aproveitar os momentos. Essa coisa me torna quase impossível ser feliz pelo agora, pelo que eu tenho, pelo mora em mim. Acho que ela é como uma bactéria que rasteja até o cérebro e me força o tempo todo a achar que a felicidade está amanhã, que virá um dia e que o hoje é apenas a antessala do amanhã feliz. Aí, então, caímos naquele paradoxo do amanhã ser o hoje um dia mais tarde, que não existe ontem nem amanhã, só o agora. A lógica diz que adquirir a consciência de algo que nos transtorna é o primeiro passo para transformar o transtorno em aprendizado e o aprendizado em cura. Digam-me os sábios que dominam essa lógica: depois de trazida à consciência a minha aflição, qual o próximo passo? Sim, porque me sinto na madrugada entre o lamuriento eu de ontem e o vitorioso eu de amanhã. Um eu que sabe que ontem estava errado e o amanhã há de acertar. Veja que curioso, mais uma vez caio na armadilha de não saber o que fazer com o agora. Afrontado pelo medo de desperdiçar a reflexão, portanto, resolvi escrever. E o ato de escrever não me traz dinheiro, aceitação, amor ou amizade. Mas esse diálogo entre mim e você, desconhecido leitor, alivia o peito e me consola com a pequena esperança de que você tome meu exemplo. Quando também estiver acometido por um sentimento apático e assustador, faça algo que lhe dê algum prazer.

12.4.10