19.4.10

Uma madrugada

Ando acabrunhado, talvez de solidão. Não sei se é bem isso. Na realidade, se tenho uma grande dificuldade de saber quem verdadeiramente sou na maioria das vezes, imagine se saberia que tipo de mal me acomete ou que nome dar a ele. Respeito a minha condição de não saber as coisas porque é precisamente ela que me permite todos os dias fazer o questionamento principal: de onde vem, para onde vai e onde me leva o que sinto? Dar um nome a essa coisa, portanto, é o que menos importa. Meu terapeuta, inclusive, declarou que de todos os pacientes dele, o que melhor convive com estar só sou eu. Mas o fato é que estou mesmo acabrunhado, com um espaço vazio que parece percorrer a extensão do esôfago e que me impede de sentir mais intensamente as coisas e dificulta relaxar e aproveitar os momentos. Essa coisa me torna quase impossível ser feliz pelo agora, pelo que eu tenho, pelo mora em mim. Acho que ela é como uma bactéria que rasteja até o cérebro e me força o tempo todo a achar que a felicidade está amanhã, que virá um dia e que o hoje é apenas a antessala do amanhã feliz. Aí, então, caímos naquele paradoxo do amanhã ser o hoje um dia mais tarde, que não existe ontem nem amanhã, só o agora. A lógica diz que adquirir a consciência de algo que nos transtorna é o primeiro passo para transformar o transtorno em aprendizado e o aprendizado em cura. Digam-me os sábios que dominam essa lógica: depois de trazida à consciência a minha aflição, qual o próximo passo? Sim, porque me sinto na madrugada entre o lamuriento eu de ontem e o vitorioso eu de amanhã. Um eu que sabe que ontem estava errado e o amanhã há de acertar. Veja que curioso, mais uma vez caio na armadilha de não saber o que fazer com o agora. Afrontado pelo medo de desperdiçar a reflexão, portanto, resolvi escrever. E o ato de escrever não me traz dinheiro, aceitação, amor ou amizade. Mas esse diálogo entre mim e você, desconhecido leitor, alivia o peito e me consola com a pequena esperança de que você tome meu exemplo. Quando também estiver acometido por um sentimento apático e assustador, faça algo que lhe dê algum prazer.

23 comentários:

  1. Ja ouvi de alguem um dia que nascemos sozinhos, e pela vida seguimos assim, mesmo cercado de pessoas. Escrever pode não trazer dinheiro, amor ou amizade, mas garanto que para quem o lê, como eu, traz uma profunda admiração pela forma tão coesa com que expõe o que sente.
    Solidão é um bichinho sim...uma bactéria que acomete quem baixa sua guarda, deixa a resistencia cair. É dificil falar para os outros que solidão não existe. É um exercicio tão pessoal combate-la, que por mais que eu tente explicar como faço para que ela nao me atinja, não consigo convercer o mundo disso...rs rs rs.

    Tente dizer pra vc mesmo, que o mundo é feito de pessoas sós. A felicidade alheia pode estar tão recheada de solidão quanto os que aparentemente se veem sozinhos.

    E mesmo que agora vc sinta esse aperto no peito...pode ter certeza, que amanhã, vc pode acordar como se nunca tivesse sentido isso.

    Falar sobre, ajuda...e muito.

    abraço amigo virtual...

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  2. Bem assim. Bem assim mesmo. Me too.

    Abraço grande.

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  3. "E ninguém sou eu, e ninguém é você. Esta é a solidão."

    Vale não te dizer nada e só passar a mão no teu ombro?

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  4. Anônimo8:35 AM

    Eu conheço estas palavras.
    Parece-me estar vendo a pessoa.
    Não arrisco em dizer o nome, mas é quase certo que conheço estas palavras.

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  5. Materializar em texto é sempre um bom remédio. Torna as coisas palpáveis para análise.

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  6. Anônimo12:58 PM

    Às vezes dói e é apenas isso.Apenas isso.

    Um abraço de quem te lê desde o começo...

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  7. Talvez você devesse deixar alguém também sozinho tocar sua solidão.

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  8. Cafeína, não fique triste. Se bem que nós, fãs do blog, devemos esperar uma compilation daquelas. Afina, já diziam que "é preciso um bocado de tristeza, é preciso um bocado de tristeza, se não não se faz um samba não". Solidão só faz sentido por um tempo, até depurarmos a alma, estudar mais, ler mais, chorar mais, pensar mais. Quem sou eu para aconselhar, hein?
    Desejo paz, amigos, abraços e, quem sabe daqui a um pouco, gargalhadas.

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  9. Valeria7:26 PM

    Minha nossa!
    Em gênero, número e grau!
    É sempre bom passar por aqui.
    um beijo desconhecido, porém sincero.

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  10. Anônimo6:54 PM

    Poderia fazer parte da sua opção de coisas que te dão prazer, disponibilizar novamente a sua compi para correr. Sou louco por tê-la, mas no tipo de arquivo que vc disponibilizou, impossível para mim.
    Gosto muito do seu blog e de suas compis.
    Guilherme.

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  11. Guilherme, a compi pra correr é Loaded e eu subi de novo aqui: http://www.mediafire.com/?nmnmzykmudj

    Está numa pasta zipada, você precisa descompactar para ouvir.

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  12. Anônimo8:23 PM

    Thank's a lot!!!
    Viva!!!
    Guilherme

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  13. Joaquim10:42 PM

    Olá!!Sou mais um que vira e mexe dá umas passadas e vez em quando rouba umas compi. Me chamo Joaquim e acredite, lendo seus textos tão explícitos e verdadeiros confirmo o quão bom é partilhar das histórias de "desconhecidos" que também parecem com nossas histórias. Um abraço pé na tábua!

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  14. Guilherme7:26 PM

    Olha só...

    Que bom gosto vc tem heim? Tá bom... Ninguém nunca te disse isso. Vou acreditar!

    Dá tranquilamente pra correr mais de 10km e a Compi é ótima!

    Será que toca no Ipod da Hebe? hehe

    Valeu e obrigado.

    Gui

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  15. Melhor que tudo é não se sentir um extra-terrestre nesse estranho e simples mundo. Me senti assim depois dessa leitura.
    Sim, "a conscientização tem efeito de cura". E frequentemente faço esse mesmo questionamento q vc fez. Depois da conscientização de todos os nós, todos os prós, todo um pouco de nós mesmos que dá um certo trabalho a nossa vida, o q é q a gente faz? Como transformar toda essa descoberta em algo realmente prático, que nos torne mais centrados no hoje, no agora, no que temos disponível no momento presente? Algo que nos deixe mais felizes já? Sim, porque essa conscientização angustia. Algo do tipo "eu sei mas não consigo". Por isso já disseram e repetiram inúmeras vezes que "só os idiotas são felizes", que "a ignorância é uma benção", ou coisa do gênero. Pq os questionamentos só angustiam, apertam e sufocam, qdo a gente é apresentado a eles. Oficialmente. E respondê-los significa que a prova apenas começou. porque depois da teórica, sempre vem a prática.

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  16. Daí se conclui que o agora não existe também, nós é que tentamos nos enganar dizendo que só ele vale, mas sem ontem e sem amanhã hoje também não tem, porque as referências se perdem, ontem de quando? amanhã de quando? Mas hoje não era o amanhã de ontem? E poderíamos ficar assim por dias. Já tentei viver só o agora, acredite, não dá. Só tendo algum troço na cabeça e perdendo a memória de médio e longo prazo, mas nós não queremos isso também. Então não tem jeito, ninguém mandou pensar :-)

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  17. lindo texto,lindo título do blog.. a angústia é uma dor e pode ser bonita.

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  18. Eu me sinto assim a maioria do tempo, muito bom como vc falou de solidão, ando brigando muito com uma amiga, pois ela quer que eu saia da minha solidão, mas não é capaz de entender que não é uma doença é só um momento de solidão.
    Adoro o que vc escreve.
    Poliana

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  19. Muito lindo! Eu particularmente acho interessante esses momentos onde colocamos essas angústias pra fora, nascem textos lindos como este. Talvez seja esse o único lado positivo da 'tristeza'. Amo seu blog. Vc é o máximo.

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  20. Anônimo11:25 PM

    Sempre dou uma passada pra roubar as compilations, mas é dos seus textos que gosto mais...

    Obrigada!

    Ana

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  21. Gosto de escrever, assim como você.

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  22. Anônimo10:16 PM

    Vc sempre consegue me surpreender...

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  23. Anônimo10:17 PM

    Sou egoista demais, queria ler algo novo seu todos os dias....A.

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