25.8.10

Uma folha em branco


Uma folha em branco. Ela e eu nos olhando um tanto desconfiados um do outro, sem muita intimidade para dizer coisas muito verdadeiras. Pelo menos não daquelas coisas que se diz como quem desabafa, sem preocupar-se com o impacto que poderá causar. O que me leva a crer que escrever verdades a meu respeito está fora de cogitação.

A verdade, no entanto, aqui não precisa necessariamente contar. Ou melhor, eu não preciso necessariamente contar a verdade. Não ignoro que você esteja aí me lendo, nem finjo que estou em alguma espécie de confessionário onde posso despejar o pior de mim para depois ser absolvido por alguma autoridade superior. Eu não acredito nesse tipo de absolvição. Acho, muito ingenuamente, que ela não vem de cima, mas de dentro.

Mas continuo escrevendo, matando lentamente com cada palavra o espaço em branco da folha. O problema é que, como na vida, quanto mais palavras você jogar na folha, mais espaço vazio surge abaixo. Será que quanto mais se fala mais silêncio se cria? Pensando bem, não pode ser assim. Porque quando tentamos nos expressar, queremos ser compreendidos, ou quem sabe, na pior das hipóteses, ouvidos. Tudo isso pressupõe o ato comunicativo. Eu digo, você ouve, comenta dizendo que sim, ou que não, ou que compreende. Até quando não comenta já está dizendo que desaprova ou mostrando sua indiferença.

Outro dia sentei para escrever algo sobre uma ideia que me pareceu interessante quando eu a tive. Depois de dois parágrafos, percebi o tom de ressentimento que estava aplicando ao texto. Um ressentimento absolutamente inocente — não sei se pode haver inocência em ressentimento, talvez seja mais adequado dizer que ele era totalmente inconsciente. Foi então que eu entendi: o ressentimento é algo muito prolífico. Ele tem a capacidade de motivar o indivíduo a produzir, trabalhar, relacionar-se, viajar, tomar decisões importantes, atitudes há muito adiadas. Tudo acontece fácil e sem hesitações.

Naquele dia, eu reli o que havia escrito e me transformei por alguns instantes no leitor desconfiado que geralmente sou. Que desagradável pode ser olhar-se de longe. Mas também é necessário. Não precisei publicar em lugar algum. Minha catarse se fez na releitura. Bom seria se tudo na vida fosse como escrever um texto e pudéssemos ter a chance de revisar nossos atos antes de soltá-los no mundo. Tudo que estivesse fora da norma seria automaticamente corrigido e ninguém precisaria ver nosso arrombo de incorreção.

A realidade, no entanto, não é assim. Eu mesmo já devo ter revelado mais de mim nessas linhas do que gostaria e depois que isso for lido, não há o que revisar. Importante mesmo é não deixar de.